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O mundo visto por um cristão tomista é completamente diferente do mundo visto por um budista Tiantai. As concepções metafísicas são bastante divergentes. Para São Tomás de Aquino (1.225–1.274 D.C.), cada animal ou vegetal possui uma alma individualizada, enquanto a tradição budista entende que todos os entes são insubstanciais, ou seja, apenas produtos de relações causais e vivificados por uma mesma “alma”.

O budismo Tiantai, fundado pelo mestre Zhiyi (538-597 D.C.), é anatman (sct), isto é, não acredita em uma alma nos moldes cristãos. Esta religião explica o movimento e a vida dos seres a partir de um outro paradigma, sintetizado na expressão sânscrita Tathagatagarbha. Apesar de algumas implicações éticas semelhantes, questões como a existência da vida e o papel do homem na natureza são bastante incompatíveis entre as teologias tomista e budista.

Para cumprir o objetivo desta postagem, antes de realizar o estudo comparativo propriamente dito entre as concepções de alma, é preciso, primeiramente, desenvolver alguns raciocínios a fim de se justificar a importância deste trabalho e fundamentar por meio de ampla bibliografia o que Tomás entende por alma e o que a Escola Tiantai entende por Tathagatagarbha.

Com base nesta didática o trabalho se estrutura da seguinte maneira:

Para deixar bastante claro a relevância em se estudar a alma, a primeira seção do trabalho se baseia nos argumentos de Aristóteles defendidos na obra “De Anima”.

A segunda seção apresenta a definição de alma cristã de acordo com a obra de Aquino chamada “A Imortalidade da alma & a Razão Superior e Inferior”.

a terceira seção descreve como o budismo explica o movimento e a vida segundo a concepção de Tathagatagarbha.

E, fundamentando-se nas três seções desenvolvidas, a quarta, e principal seção, coloca frente a frente o Anima do cristianismo com o Tathagatagarbha.

Finalmente, o artigo apresenta suas conclusões e ainda um glossário para leitores pouco familiarizados com o vocabulário budista.

A RELEVÂNCIA EM SE ESTUDAR A ALMA

Devido ao fato de que há uma longa tradição que defende que a alma não é algo detectável aos sentidos, a maioria das pessoas considera ser improdutivo refletir sobre este tema. Muitos, principalmente os céticos, julgam qualquer pensamento que transcenda a física como apenas fruto de conjecturas e abstração, classificando esse tipo de conhecimento como vão. Há ainda aqueles que defendem que o assunto está somente vinculado à espiritualidade ou à religião e que tudo a respeito da Alma só pode ser aceito por meio de fé ou superstição e nunca por uma via demonstrativa ou filosófica. Estes pontos de vista podem ser desconstruídos se analisarmos a história da filosofia e do pensamento, tanto no Ocidente, quanto no Oriente.

No Oriente as maiores contribuições com respeito a alma são oriundas da metafísica das “religiões” locais, a exemplo do brahmanismo (hinduísmo), islamismo e o budismo. Segundo o budismo, como será visto com mais detalhes no decorrer deste trabalho, a alma é única em todo o universo; uma “substância coletiva” ao estilo “Deus de Spinoza”, que foi interpretada equivocadamente como panteísmo pelos modernos. Para o budista, em suma, há uma relação entre alma e corpo, elas não são a mesma coisa, mas também não são separadas. (GUÉNON, 2014)

“Eu não ensino que exista algo chamado velhice e morte e que há alguém a quem eles pertençam. Se alguém sustenta a visão de que jiva (princípio da vida, alma) é idêntico ao corpo, em tal caso não há vida santa. Se alguém sustenta a visão de que jiva é uma coisa e o corpo é outra, nesse caso então a vida santa é impossível.”

Samyutta Nikaya, XII, 35 (BEISERT e MAIA, 2013)

Do pensamento Grego à modernidade, é possível encontrar muitos pensadores ocidentais que se esforçaram em definir a alma e de, inclusive, classificá-la quanto a suas características e atributos. Aristóteles, na segunda parte do livro I do “de Anima” (ARISTÓTELES, 2010), enumera vários filósofos ocidentais que procuraram desenvolver o conceito de alma, apontando contradições e tentando, a partir do que já havia sido dito sobre o tema, construir seus argumentos.

De modo avesso ao entendimento oriental de que há uma “única alma”, uma parte considerável dos pensadores ocidentais costumava classificar os entes como constituídos de almas distintas, isto é, uma para cada ser.

Seja como for, essas tentativas em se conhecer a alma, buscavam basicamente um mesmo objetivo, que pode ser sintetizado pela afirmativa de Delfos: “Conhece-te a ti mesmo”. Todos esses pensadores, tanto orientais, quanto ocidentais, perceberam que parece existir algo universalmente responsável pela vida, pela propulsão do movimento e pelo constante devir da matéria sob diversas formas, pois de outro modo não existiriam os seres e tudo seria amorfo.

A palavra animação deriva de anima, que é a alma; este “estopim da vida”, pelo seu caráter universal e, portanto, metafísico, não pode ser demonstrado matematicamente e não pode ser reproduzido experimentalmente ao bel prazer como um fenômeno natural qualquer, ou seja, não pode ser avaliado com certeza absoluta.

Mesmo em meio a estas enormes incongruências, os filósofos não desistiram de abordar o assunto. Aristóteles afirmava, mesmo diante destas complicações, ser possível dizer algumas coisas sobre a alma e, ainda por cima, com um bom nível de certeza; segundo ele, refletir sobre os seres animados se faz necessário, é um princípio comum, e os resultados advindos dessa construção Metafísica podem contribuir para que o homem conheça melhor a vida que o circunda e também a si mesmo, fazendo valer, assim, a assertiva de Delfos. (ARISTÓTELES, 2010)

A metafísica é essencialmente o conhecimento do universal, ou, dos princípios de ordem universal. É impossível dar uma definição melhor que esta, em razão dessa universalidade mesma que é sua primeira característica e aquela da qual derivam todas as outras. Na Realidade, só o que é limitado pode ser definido, e a metafísica é, ao contrário, na sua própria essência, absolutamente ilimitada. Os conhecimentos das ciências naturais estão limitados à experiência, enquanto que a metafísica é constituída por algo do qual não há nenhuma experiência: sendo “além da física”, não podendo estar, desta maneira, submissa a nenhum grau de mutabilidade e influência de épocas e lugares. O contingente, o acidental e o variável, são pertencentes ao domínio individual e apresentam-se em múltiplas modalidades, não são, portanto, universais. Quando se trata da Metafísica, o que se pode mudar com os tempos e os lugares são apenas os modos de exposição, ou seja, as formas mais ou menos exteriores com as quais a metafísica pode ser revestida e que são suscetíveis de diversas adaptações.

Como já mencionado, a percepção da existência do atributo que dá movimento aos seres, isto é, que dá ânimo à vida, foi percebida tanto por pensadores ocidentais, que o chamaram de alma, por influência dos gregos e do cristianismo, quanto orientais, que a chamaram por outro nome (apesar das não poucas divergências quanto à natureza deste atributo, que serão estudadas mais adiante neste trabalho). Outro exemplo, seria a ideia presente na metafísica de que há uma Verdade absoluta: tanto filósofos da escolástica quanto pensadores das religiões tradicionais no oriente não entendiam a Verdade como algo relativo ou subjetivo.

Em síntese, a metafísica, mesmo utilizando-se de expressões linguísticas que dependem de épocas e culturas, sempre permanece perfeitamente idêntica a si mesma, porque seu objeto é essencialmente uno e além de qualquer mudança. Como disse Henry Bergson, a Metafísica utiliza-se de palavras, mas é na realidade inexprimível, por comportar a Essência, é algo que cada um pode conceber somente por si mesmo, as palavras e símbolos servem simplesmente como ponto de apoio para a sua concepção. O pensador francês ainda afirmava que a real Metafísica transcende o discurso e só poder ser apreendida por experiência própria, como por um insight ou intuição; discursos meramente conceituais não elevam os homens ao entendimento metafísico. A compreensão de uma doutrina metafísica será mais ou menos completa e profunda segundo a medida em que uma pessoa, meritocraticamente, a conceber efetivamente. A Metafísica não recorre a qualquer “meio externo” de investigação, mas sim por meio de introspecção e intelectualidade, e pode ser inteligida por homens de todas as épocas, contanto que estes busquem e amem a Verdade, colocando-a acima dos próprios desejos pessoais ou necessidades de consolação. A alma, como um conhecimento metafísico, tem esta característica universal. (BERGSON, 2006)

Aristóteles difere o Intelecto da razão, o Intelecto é aquilo que possui imediatamente o conhecimento dos princípios. O pensador declara expressamente que “o Intelecto é mais verdadeiro que a ciência, isto é, que a razão constrói a ciência, mas que nada é mais verdadeiro que o Intelecto”, já que este é necessariamente infalível por sua operação ser imediata, praticamente intuitiva, e, não sendo realmente distinto de seu objeto, ele forma um só corpo com a própria Verdade. Tal é o fundamento essencial da certeza metafísica; vê-se por aí que o erro só pode ser introduzido pelo uso da razão, porque a razão, diferentemente do Intelecto, é falível por consequência de seu caráter discursivo e mediato. (GUÉNON, 2014)

“Acontece que a doutrina da alma é como um compêndio de ciência das coisas humanas e divinas e prepara-nos para todo um outro conhecimento da Verdade. Mostra também o brilhante fruto desta contemplação aquilo que Santo Agostinho afirma, no livro 2 de A Ordem, capítulo 8º: Sem dúvida que há duas questões principais em filosofia; uma acerca da alma, outra acerca de Deus. A primeira, faz com que nos conheçamos a nós mesmos, a outra, que conheçamos a nossa origem. Aquela é-nos mais agradável, esta é mais gloriosa, aquela torna-nos dignos de uma vida feliz, esta torna-nos bem-aventurados.”

(CONIMBRICENSE, 2010, p. 180)

Estudar a alma é estudar a Essência dos fenômenos. Os fenômenos nada mais são do que acidentes ou consequências de uma causa primeira e hierarquicamente superior, que é a alma.

No ser humano, a alma, segundo o discípulo de Platão, é aquilo que provê, além da vida e o movimento, os sentimentos e o intelecto; sendo que as funções intelectuais, ultrapassam a matéria e as condições do corpo. É a alma quem imprime a forma aos corpos: forma humana para os humanos, animal para os animais e vegetal para os vegetais, é ela quem define a espécie ao qual um ser pertence.

O ser individual é encarado como um composto de dois elementos, matéria e forma; esses dois elementos são em suma a essência e a substância da individualidade. A forma não é exclusivamente a forma corporal, mas para além disso é também o conjunto inerente de potencialidades e características de um ser de uma determinada espécie. Logo, a alma domina o sensitivo e o material. Atos da vontade, por exemplo, amar e querer são considerados operações superiores, em ordem de importância, aos atos dos sentidos e do apetite e aqueles (os superiores) são capazes de controlar estes (os inferiores).

É neste contexto que o “de Anima” elenca os assuntos filosóficos, da mesma maneira, em uma sequência hierárquica, ou seja, em graus de Nobreza. Os fenômenos “acidentais” e físicos, provenientes da matéria, seriam assuntos menos nobres do que assuntos Metafísicos: a “ciência” da Essência é mais Nobre que as demais ciências. Seguindo o mesmo pensamento, Aristóteles ainda elenca graus de dificuldade em se obter conhecimentos exatos e satisfatórios das “ciências”; quanto mais ligadas aos fenômenos naturais, à lógica “objetiva” e à percepção dos órgãos dos sentidos, mais fácil é obter um elevado grau de certeza, já quanto mais próximo um assunto for da Essência, maior será seu grau de dificuldade e de entendimento. Ou seja, Nobreza e facilidade de entendimento são inversamente proporcionais. (ARISTÓTELES, 2010)

Ciente desses percalços inerentes a uma filosofia metafísica, o pensador grego arrisca-se em definir a alma e determinar o gênero a qual esta pertence. Ao longo dos livros do “de Anima”, pergunta-se se a alma é uma substância, se pode ser classificada em termos de quantidade e qualidade, se pertence aos seres em potência ou se é um tipo de ato, se é divisível ou indivisível e se é igual em todos os seres. Procura compreender as funções da alma quanto a sua faculdade perceptiva, se o sensível vem antes do perceptível, se as afecções da alma precisam ou não do corpo, difere ainda tipos de movimentos (internos ou externos) e qual deles é oriundo da alma, quais são os efeitos da corrupção do corpo nas faculdades perceptíveis, se a alma é imortal, se pode subsistir separada da matéria, etc. Obviamente as conclusões alcançadas não tem caráter demonstrativo pelo próprio perfil do que está sendo estudado, contudo, são apresentados argumentos verossímeis, visando construir um sólido e estruturado conhecimento. (CONIMBRICENSE, 2010)

Enfim, apesar de o tema alma não ter a mesma exatidão de outras áreas do conhecimento, é possível se obter, através de uma metafísica baseada na Intelectualidade, algumas certezas sobre o assunto. Os filósofos, tanto orientais quanto ocidentais, ao perceberem que havia um elo capaz de animar a matéria, movimentá-la e uni-la, gerando assim, entes; concluíram que a alma é um princípio de organização que não pode estar reduzido à matéria. Ou seja, a alma é um princípio imaterial. Aristóteles ensinava a existência de uma “hierarquia das ciências”: a “ciência da alma”, por seu perfil universal e metafísico, ganha o peso máximo de nobreza, pois está diretamente conectada ao ideal filosófico do “conhecer a si mesmo”; é um conhecimento útil, pois permite ao homem alcançar, de maneira mais eficiente, a Verdade. Por outro lado, afirma que quanto mais nobre um assunto for, maior é a dificuldade de compreensão, exigindo do estudioso maior poder de investigação e inteligência.

Os céticos acusam a metafísica de ser somente fruto de abstrações e conjecturas que não garantem nenhuma certeza e que sem essa “exatidão mínima”, requerida para se construir uma argumentação “pé no chão”, não vale a pena debruçar-se sobre um determinado tema. Por sua vez, Aristóteles, assim como muitos outros filósofos das mais variadas culturas, mesmo admitindo as dificuldades em se fazer metafísica e apresentando a tese de que nem todo objeto apresenta o mesmo grau de inteligibilidade, defende a importância de se estudar todos os assuntos, inclusive os “além da física” e que este esforço é imprescindível na busca pela Verdade.

A ALMA SEGUNDO TOMAS DE AQUINO

Neste capítulo será apresentado um breve histórico sobre Santo Tomás de Aquino e o que este teólogo entendia ser a alma, baseado na obra “A Imortalidade da alma & a Razão Superior e Inferior”. (TOMÁS DE AQUINO, 2017)

TOMÁS DE AQUINO

Tomás de Aquino [1225-1274], conhecido como Doutor Angélico, filósofo e teólogo dominicano, escreveu diversas obras de enorme influência na teologia e na filosofia, principalmente na tradição conhecida como Escolástica. Entre suas mais importantes obras, contamos as famosas “Questões Disputadas”, fruto de uma metodologia original em que Aquino cerca um determinado tema comedidamente e profundamente com argumentos pró e contras, ponderando-os para finalmente emitir sua conclusão.

A obra “A Imortalidade da alma & a Razão Superior e Inferior”, base para a exposição do pensamento de Aquino neste trabalho é dividido em 6 artigos que se utilizam do método das “Questões Disputadas”.

A ALMA

Tomás de Aquino defende uma concepção cristã da alma. A alma, segundo ele, está presente em muitos entes, tanto em humanos quanto em animais e até vegetais (mas não está presente nos minerais). As almas dos animais e vegetais são as formas de seus corpos e desaparecem no processo de corrupção dos mesmos, porém, a alma humana é imortal, pois somente esta é capaz de inteligir, o que demanda operações não redutíveis à materialidade.

A alma humana supostamente parece se encontrar no “meio termo” entre as criaturas corruptíveis e as incorruptíveis; alia-se ao incorruptível com respeito à intelecção e alia-se ao corruptível no corpo (matéria), pois a alma comanda o corpo. Pelo fato da alma ser a forma e imprimir movimento ao corpo, estando deste modo associada ao corruptível, muitos pensadores argumentavam que sua natureza fosse mortal tal como o corpo, contudo, para Aquino, o fato da alma inteligir coisas necessárias e perpétuas, como a própria verdade, os universais e os princípios e conclusões da ciência, parece manifesto que é incorruptível.

Há então uma clara distinção entre almas, uma hierarquia. Os animais irracionais, por exemplo, só teriam o conhecimento sensitivo, não poderiam conhecer o ser e o bem, a não ser aqui e agora. Por outro lado, a alma humana intelige de modo absoluto o ser e o bem, pode, como já dito, inteligir universais, ou seja, fazer ciência.

O desejo natural da alma humana é para o ser e o bem, não unicamente no momento presente, mas absolutamente e por todo o tempo. O objetivo último da alma humana é conhecer a causa primeira das coisas, isso fica evidenciado ao se perceber que os humanos, ignorantes das causas, ficam perplexos em face aos efeitos da natureza, e esta admiração os impulsiona a investigar as causas. Este desejo natural não se contenta até que encontre a causa de qualquer efeito, que tem por meta final encontrar a causa primeira (Deus). Esta causa primeira só pode ser apreendida em plenitude após a dissolução do corpo humano. Isso implica, segundo o teólogo, que a alma deve permanecer após a morte física, sendo, portanto, incorruptível. Enquanto as almas estão “ligadas” aos corpos, nesta vida, elas podem inteligir apenas parcialmente a causa primeira, pois a matéria é marcada pelo tempo, isto é, não é eterna.

Depois da morte do corpo, a alma pode contemplar a causa primeira em um nível que agora não é possível (visão beatífica), mas essa contemplação nunca ocorre por esforço próprio, mas sim pela concessão de Deus; nenhum esforço humano conseguiria inteligir a essência da causa primeira, mesmo que parcialmente.

O intelecto é algo que opera por si mesmo e não procede por nenhum órgão corpóreo, como acontece com os sentidos. Desta forma, o intelecto é algo subsistente por si mesmo e o que é subsistente por si mesmo e incorpóreo, necessariamente é incorruptível; consequentemente, resta que aquilo pelo qual o homem intelige, isto é, a alma, é totalmente incorruptível. (TOMÁS DE AQUINO, 2017)

Esta noção de participação da alma com o divino já se encontrava no pensamento grego antigo e é resgatado por Tomás de Aquino em sua exposição sobre a concepção cristã da alma. Xenofonte, discípulo de Sócrates, assim afirmou em sua obra Memoráveis (IV, III):

“Certamente a alma do homem participa, mais do que qualquer outra coisa humana, do divino”.

(apud MONDOLFO, 1972, p. 97)

e ainda na mesma obra (I, II):

“o que o homem tem de maior e melhor, a alma, o Deus lha infundiu”.

(idem)

O mesmo Xenofonte também entendia a alma como algo incorruptível, afirmando como se segue, no livro Ciropédia (VIII, VI):

“Nunca pude persuadir-me de que a alma viva enquanto se acha em um corpo mortal e morra ao separar-se dele, pois vejo, em vez disso, que os corpos mortais têm vida durante o tempo em que a alma está neles. Nem de que a alma possa ficar privada do intelecto quando se separou do corpo que não tem intelecto; e nunca pude, também, persuadir-me disso, ao contrário, a razão exige que o espírito, sincero e puro, seja mais intelectual do que nunca, quando se separou [do corpo]”.

(apud ibidem, p.97-98)

A alma, por sua própria essência, é a forma do homem, e, ao se corromper o composto corpo-alma, pela separação da alma, esta permanece, não como forma daquele corpo, mas enquanto possui uma virtude formativa. Neste sentido, não há propriamente corrupção do homem, a não ser pela corrupção do corpo que se torna indisposto naturalmente para receber o ser da alma. Deve-se considerar que a imortalidade da alma é verdadeira, quanto à própria natureza da coisa, mas é relativa ao querer divino, que poderia fazer com que ela voltasse ao nada. Contudo, esta possibilidade nunca é concretizada, porque Deus, quando cria uma natureza, quer que ela seja de tal forma que mantém o que ela é – do contrário, entraria em contradição com o seu querer –, isto é, mantém constantemente no ser a alma a partir da sua criação, na sua incorruptibilidade natural.

A alma foi criada à imagem e semelhança de Deus. Se Deus é espírito e o espírito é imaterial, logo a natureza da alma humana também é espiritual. Portanto, a alma humana é imaterial, razão pela qual é incorruptível. A onisciência divina não anula sua onipotência nem sua vontade livre, razão pela qual Deus sabe o que criar e o que pode criar, mas só cria quando sua livre vontade assim o deseja. Por isso, nada impede que a alma humana, mesmo sendo criada, seja imortal, porque foi criada com natureza imortal, não sendo necessário que tenha existido desde sempre para justificar sua imortalidade.

Outra característica importante apontada por Tomás de Aquino com respeito à alma é a divisão entre razão superior e inferior, distinção emprestada de Agostinho, que diz que ambas são uma só potência que se diferencia pelas suas funções. A superior é a que considera e delibera sobre as coisas eternas, enquanto a inferior pelas “coisas terrenas”. A razão superior está relacionada à sabedoria e a inferior às ciências e ao entendimento. A razão é uma potência da alma que discorre para a verdade e a sabedoria, a ciência e o entendimento são virtudes intelectuais, a ciência e o entendimento se distinguem da sabedoria porque aquelas se ocupam das “causas inferiores”, enquanto esta se ocupa das primeiras causas.

“[…] a mente humana só pode discorrer de um conhecimento para o outro, se o seu discurso iniciar por alguma aquisição simples da verdade, cuja aquisição é a intelecção dos primeiros princípios”

(TOMÁS DE AQUINO, 2017, p. 76)

A razão humana, segundo Tomás só pode alcançar a verdade se partir de um “ponto referencial inato” colocado por Deus.

A intelecção de algo ocorre em duas etapas, no princípio da razão, pela via da invenção e no término pela via do juízo. A invenção é a apreensão de um conhecimento que a razão atinge, quando se baseia nos primeiros princípios universais inatos do intelecto na investigação de fenômenos particulares, por cujo meio a razão atua no uso das coisas mais conhecidas para alcançar as desconhecidas.

Por outro lado, o juízo atesta ou contradita no final as conclusões as quais a razão chegou, a partir da aplicação dos primeiros princípios do intelecto às realidades particulares sobre as quais a razão se pronuncia. Assim, por mais que o conhecimento da alma humana ocorra por meio da razão, há também nela, alguma participação daquele conhecimento que é encontrado nas substâncias superiores (seres que, segundo a fé cristã, são criaturas puramente intelectivas, sem composição material alguma).

A alma intelectiva, então, é aquilo que nos diferencia dos demais entes. O homem para se realizar como ser deve buscar a reta razão; quando assim deseja viver, manifesta, como consequência, as virtudes. As virtudes podem se manifestar de duas formas na razão humana, de maneira teórica, quando se dá no campo da razão na busca pela verdade (entendimento, ciência e sabedoria) e de maneira prática, quando o homem, uma vez que compreendeu a verdade, age por meios justos e nobres para se chegar a determinado fim.

No campo da razão teórica, o entendimento está ligado à percepção e esclarecimento dos princípios (por exemplo, o princípio de identidade, contradição, terceiro excluído, etc.), a ciência é tudo aquilo que valendo-se da razão, mediante procedimento rigoroso, sistemático e estável, descobre novos conhecimentos (via investigação) e a sabedoria é o coroamento de toda a atividade intelectual, é quando os laços são atados, ou seja, acontece a interligação do conhecimento adquirido nas “etapas” anteriores e há a busca pela causa primeira, aquilo para o qual a natureza humana se inclina.

De outra parte, as virtudes práticas se manifestam no homem através de um exercício imposto e repetido (cultivado) pelo próprio homem que deseja incorporar estas virtudes como sua segunda natureza, manifestando-as como hábitos, com o intuito de suprimir seus vícios e agir ou até mesmo deixar de agir quando conveniente. Exemplos de virtudes práticas: coragem, caridade, justiça e temperança.

Enfim, quando o homem decide viver segundo sua verdadeira natureza, isto é, como um ser cuja primazia deve ser o espiritual, procura adequar-se a uma hierarquia de bons valores. É neste ponto em que a alma e a ética se encontram e a definição de pecado nasce. Deus imprime na alma de todos os seres humanos o que Tomás costuma chamar de Lei Natural. O homem mau é aquele que, mesmo conhecendo o bem, uma vez que a Lei Natural também se encontra em sua razão superior, prefere o pecado.

“[…] ainda que a razão superior esteja ordenada para aderir-se às coisas eternas, porém, nem sempre se adere a elas. E, assim, nela pode haver pecado.”

(TOMÁS DE AQUINO, 2017, p. 114)

Por outro lado, o homem bom deve manter-se atento ao estado de sua alma, se esta está em adequação ou não à Lei Natural, preocupando-se, assim, em purificar-se, libertar-se das paixões da carne e elevar-se espiritualmente segundo o fundamento de que é portador de uma alma de natureza divina e incorruptível.

“[…] embora a razão superior não esteja imediatamente unidade à carne, a corrupção da sensualidade da carne lhe alcança, na medida em que as potências superiores a recebem das inferiores.”

(ibidem, p. 134)

Essa incorruptibilidade conduz-nos a um entendimento de que após a dissolução dos corpos há um destino futuro e imortal para nossas almas e que este futuro se realizará segundo o julgamento justo de Deus que salvará aqueles que buscarem a causa primeira e agirem conforme as virtudes da alma e, ainda que prefira a redenção ao castigo, condenará à morte eterna aqueles que preferirem viver conforme as inclinações do corpo.

“E, assim, o desejo natural não descansa até que encontre a causa de qualquer efeito. Portanto, como o fim último é o que totalmente aquieta o desejo natural, é manifesto que no conhecimento da causa primeira está o fim último da alma humana. Por isso, diz-se em Jo 17,3: esta é a vida eterna etc. Ora, a alma humana não chega a este fim enquanto estiver unida ao corpo, pois, de outro modo, existiria em vão, como não podendo chegar ao fim próprio. Portanto, essas razões e outras semelhantes a esses são alguns dos sinais tomados da imortalidade.”

(ibidem, p. 42)

“[…] a noção de pecado mortal consiste em uma aversão a Deus. Ora, a aversão a Deus não é próprio da razão inferior, mas da superior, da qual também é próprio converter-se a Deus, pois os opostos pertencem a um mesmo.”

(ibidem, p. 119)

No âmbito social e temporal, a Lei Natural deu origem ao Direito Natural. O Direito Natural é aquilo que rege como se dá nossa relação de direitos e deveres com os demais para que se realize a justiça.

A ideia do Direito Natural também é resgatada do pensamento grego antigo e foi adaptada ao cristianismo pelos teólogos ao longo da história da Igreja. Aquino também faz uso desta definição em seus trabalhos. O Direito Natural tornou-se um conceito central na civilização ocidental, sedimentando a ideia de que, simplesmente em virtude de ser um ser humano, eu possuo certos direitos que são inerentes à minha própria natureza, enquanto criatura racional, como o direito a não ser assassinado, a não ser expropriado, etc. A consolidação do direito natural no ocidente é, então, um avanço de significação não desprezível.

Ao se estender essa ideia de direitos ao mundo inteiro, fica sugerido que todos os povos do mundo gozam dessa mesma dignidade fundamental. De acordo com o pensamento cristão, toda a humanidade merece os mesmos direitos porque são feitos à imagem e semelhança de Deus, uma vez que Deus também é espírito (alma) e por isso nós teríamos uma coparticipação neste tipo de natureza. Em suma, para o cristianismo, todos, identicamente, compartilham uma dignidade que exige o reconhecimento de direitos. (WOODS, 2008)

CONCEPÇÃO DE ALMA SEGUNDO A ESCOLA BUDISTA TIANTAI

Antes de inciar a discussão sobre a perspectiva de alma segundo a chinesa Escola Tiantai (conhecida como Tendai no Japão), se faz necessário compreender o que é esta escola e o que basicamente ela ensina.

A ESCOLA TIANTAI

Depois da morte de Buda (Siddhartha Gautama) em meados de 500 AC, divergências entres os primeiros Budistas começaram a acontecer; este fato, intensificado pela expansão da religião pelos países asiáticos, cada qual com sua cultura bem característica, proporcionou, com o passar dos anos, uma intensa ramificação do Budismo em facções.

Após a primeira grande divisão Mahayana e Hinayana, outras subdivisões foram ocorrendo, até termos atualmente centenas de denominações Budistas. Uma das linhagens que se destacou e muito influenciou o Budismo como um todo foi Tradição Mahayana Tendai, fundada na China no período Sui-Tang e posteriormente introduzida no Japão no período Heian. (YOSHINORI, 2006)

FUNDADORES DA TRADIÇÃO TIANTAI

A Tradição do Budismo Tiantai iniciou-se na China, mais especificamente no Monte Tiantai (Tendai, jpn), ao sul do país, onde o monge Zhiyi (538-597 D.C.) buscou sintetizar os ensinamentos Mahayana do sul e do norte em um todo coerente. Para este fim, o sacerdote baseou-se em sutras e outras escrituras de mestres proeminentes, como o patriarca Nagarjuna (150-250 D.C.).

A Escola Tendai chegou ao Japão por meio do monge Saicho (767–822 DC), no período Heian. Saicho em 804 viajou para a China como estudante e permaneceu no monte Tiantai durante a dinastia Tang. Depois de receber autorização como mestre nesta linhagem, Saicho voltou para o Japão para propagar seus ensinamentos e obteve considerável êxito. (POCESKI, 2013)

Infelizmente, a doutrina Tiantai perdeu muita força e degenerou-se no Japão após a morte de Saicho; na China, em 1949, enfraqueceu-se devido à atuação repressora do comunismo. Atualmente, a escola é pouco difundida tanto nestes países, quanto em qualquer outra parte do mundo.

As escolas contemporâneas, que se consideram de origem Tiantai, ensinam, na realidade, doutrinas que pouco têm a ver com aquelas defendidas pelos fundadores, a exemplo das escolas Jodô-Shinshu (de Shinran) e as seitas de Nichiren (ou Nitiren), que mesmo diante de uma notória heterodoxia em comparação com a doutrina original, atribuem a Tiantai a ascendência de seus ensinamentos. (MUNIZ, 2010)

A DOUTRINA TIANTAI

O Budismo defendido por Zhiyi e Saicho, além de se fundamentar no estudo aprofundado dos sutras e tratados dos patriarcas, procura enfatizar também a prática diária. Apenas a erudição, sem a aplicação destes conhecimentos no dia a dia é considerada como inócua. Por outro lado, somente a prática, sem um estudo razoável, tende a se tornar mera superstição e, assim, igualmente estéril. Logo, para a escola, prática e estudo são dois remos de um mesmo barco. A práxis é essencial.

Os pilares doutrinários da Escola Tiantai são a Transitoriedade, Insubstancialidade, Sofrimento (Dukkha, sct) e Iluminação. A Transitoriedade diz respeito à máxima de que nada nesse mundo é perpétuo. A Insubstancialidade refere-se ao vazio, ou seja, de que as coisas são carentes de substância, desta forma, a “coisa em si” não existe, tampouco, entes metafísicos como “alma individual” ou Deus. Já o Sofrimento relaciona-se às Quatro Nobres Verdades que enunciam, basicamente, que a dor permeia toda a existência – fato que é percebido em um simples bater de olhos em qualquer telejornal.

As Nobres Verdades também declaram que é com o proceder ético que se faz possível minimizar o sofrimento próprio e dos demais. A Iluminação, por sua vez, é a meta última do Budista, é o estado de plena compaixão pelos seres e de percepção “nua e crua” da realidade, sem as ilusões conformistas que tanto seduzem o ser humano; em suma, é a aceitação da Verdade mesmo que esta venha de encontro ao ego, seus preconceitos e vontades.

A prática pode ser sintetizada em uma série de ações capazes de transformar toda a erudição em atitudes reais. O vegetarianismo, por exemplo, é uma forma de compaixão que visa beneficiar os seres sencientes; já a meditação e as recitações funcionam como ferramentas de autoanálise com o objetivo de coibir vícios, destacar virtudes e catalisar a Iluminação.

Enquanto as outras linhagens ressaltavam um único método de Iluminação, seja este devocional, pela recitação de mantras, performance de mudras ou pela meditação, a Escola fundada por Zhiyi admitia a coexistência de todas estas práticas; assim, o próprio fiel, orientado por um mestre, “escolhia” suas práticas conforme suas características físicas e comportamentais. Por exemplo, nem todo mundo consegue ficar meia hora na posição de Lótus meditando, seja por ansiedade ou por problemas posturais ou nem todos se agradam dos devocionais “mais barulhentos” dos mantras; desta forma, havia abertura para pessoas de diversas características distintas. Esta flexibilização se baseia no conceito de Meios Hábeis, descrito no Sutra do Lótus, texto que, acompanhado do Sutra Mahayana do Nirvana são considerados os principais dessa Tradição. É preciso ressaltar ainda que esta abertura não implica, de nenhum modo, que a prática poderia ser realizada com lassidão; um genuíno mestre Tendai exigia de seu discípulo uma intensa disciplina, independentemente do método adotado. O esforço, tanto nos estudos dos textos sagrados quanto na prática, sempre foi considerado pela Tradição como uma condição essencial para se atingir a Iluminação. (POCESKI, 2013 e YOSHINORI, 2006)

A ALMA TIANTAI

No Rig Veda (X, 129) é apresentada uma versão da cosmogonia, que viria a influenciar as principais teses do pensamento indiano, inclusive o Budismo, sobre o Atman, ou seja, sobre a “Alma Universal”, geratriz da vida e da existência de todos os entes. O poeta desenvolve seu pensamento perguntando a si mesmo como o ser pôde sair do não ser, já que no início, não “existia o não ser, nem o ser” (estrofe 1,1).

“Nesse tempo não havia morto, nem não morto” (isto é, nem homens nem deuses). Só havia o princípio indiferenciado conhecido como “Um” (neutro). “O Um respirava por impulso próprio, sem que houvesse inspiração ou expiração.” Afora “isso, nada mais existia” (estrofe 2). “No início, as trevas estavam escondidas pelas trevas”, mas o calor (provocado pela ascese, tapas) deu origem ao “Um”, “potencial” (abhu) – isto é, “embrião” – “recoberto de vacuidade”. Desse germe (“potencial”) desenvolveu-se o desejo (kama), e esse mesmo desejo “foi a semente primeira (retas) da consciência (manas)”.

(apud ELIADE, 2010, p. 128)

A realidade para o Budismo Tiantai segue esta linha da Vacuidade e do “Um” (monismo), referenciada em definições “emprestadas” do Budismo Mahayana e do Budismo Esotérico (Shingon, jpn). Este “sincretismo” ocorre porque o introdutor da Escola no Japão, o mestre Saicho (FIGURA 1), além de declarar-se mahayanista, também recebeu influências do Budismo Shingon, pregado por Kukai, seu contemporâneo. (YOSHIRO, 2006)

Saichô, introdutor da tradição Tiantai no Japão

FONTE: DESCONHECIDO (2009).

Segundo a tradição Tiantai, todos os dharmas (fenômenos) ocorrem em um fluxo contínuo, mudando a cada instante, nunca permanente; desta maneira, afirmando que todos os fenômenos são vazios (sunyata, sct) e carentes de natureza própria (essência). Dizer que as coisas não possuem essência, ou não são reais, não implica afirmar que um objeto ou fenômeno não exista de fato. Os dharmas são transitórios e fugazes, mas não devem ser entendidos como “miragens”. Mesmo que as coisas do mundo sensível sejam efêmeras e encontrem-se sempre em mudança, elas são reais da forma com que se apresentam.

Uma cadeira, por exemplo, é um conceito dentro do pensamento humano, só existe dentro da mente. Este conceito é associado à cadeira de uma casa, atribuindo a ela um significado, numa tentativa de “congelá-la” no tempo. A cadeira desta casa é real? Em um sentido objetivo, sim, mas ela não possui “realidade própria” porque é meramente um fenômeno. A cadeira é o resultado de causas e condições que propiciam sua existência: o solo que fez nascer a árvore que serviu de matéria-prima, o marceneiro que com habilidade e conhecimento construiu o assento, as ferramentas e os pregos que, por sua vez, foram desenvolvidos e produzidos por outras pessoas e, além disso, após a degradação natural com o tempo, esta cadeira “deixa de ser” cadeira, suas partes se desagregam e retomam o processo de um novo nascimento, fazendo parte de outros entes igualmente fugazes e compostos; assim, todos estes atributos fazem desta cadeira apenas um fenômeno efêmero, sem “realidade substancial”, como uma “breve faísca” em comparação à ordem de grandeza temporal do universo.

Atribuir substancialidade ou uma característica “fixa” a um fenômeno é, na concepção de Tiantai, uma ilusão justamente por isso. Porque todas as coisas surgidas são assim, inclusive os seres sencientes. A ilusão e os apegos humanos querem atrelar características de ser às coisas, mas elas, segundo a tradição Tiantai, “não são”. Elas estão num estado constante de mudança. E tudo é assim. O homem é apenas um instante de um processo impossível de se marcar o início e mesmo depois de se dissolver, as coisas que lhe formam não desaparecem, apenas passam a fazer parte de outras coisas. Todas as coisas apresentam interdependência, já que se um único estágio da produção da cadeira (ou do seu surgimento) fosse eliminado, tudo seria diferente e ela nunca viria a existir. Neste sentido “tudo é Vazio”. (VASCONCELOS & PRATI, 2014 e SNODGRASS, 1997)

Por outro lado, não se pode deixar de considerar que o mundo físico e seu vazio são dois aspectos de uma mesma realidade, não há vazio sem formas fenomênicas e não há formas fenomênicas sem a vacuidade. Formas e o vazio são inseparáveis, são fundidas, e ambas são igualmente reais. A impermanência e o vazio ou vacuidade, significa que as coisas surgem de um processo e elas representam apenas um instante desse processo. As pessoas comumente apenas enxergam um dos aspectos desta unidade.

O budismo esotérico ensina que a realidade apresenta dois aspectos, um relativo, finito e condicionado e um absoluto, infinito e incondicionado. Em uma visão parcial, todas as coisas são transitórias e em momentâneas transformações, carentes de natureza própria; mas na totalidade, o imperfeito, o efêmero e os mutáveis dharmas estão fundidos com o perfeito, o eterno e a imutável “Realidade como ela é” (tathata, sct). O mundo sensível, fugaz e de formas impermanentes, é “movido” ou “vivificado” pelo Mundo de Buda: adamantino e durável; e ambos os mundos se interpenetram. (SNODGRASS, 1997)

Esta “natureza essencial”, composta pelo que é impermanente em união com o duradouro, é chamada, na literatura Budista, de Tathāgatagarbha, que em uma tradução literal seria “Ventre do Tathagata” (Tathagata é um dos epítetos de Buda). (YOSHINORI, 2006 e 2007)

O Tathāgatagarbha não deve ser entendido como algo transcendente, em nada se assemelha a um deus, não executa julgamentos, condenações, tampouco concede privilégios. Não é, tampouco, um conceito de justiça universal, mas sim, “tão somente”, a sabedoria intrínseca da vida (shunya prajña ou alaya-vijnana). (YOSHINORI, 2007 e MUNIZ, 2014).

Para o Budismo, o Sagrado é a própria Vida que se move, impulsiona a matéria e todos os seres, ocasionando os fenômenos que são vazios e marcados pelo tempo (é o contínuo vir-a-ser ao incontrolável devir). Esta Lei não é a matéria, tampouco, um ente externo a ela. Este Sagrado está tipificado na literatura pela figura do Buda Vairocana (Dainichi, jpn) (FIGURA 2), a “suprema divindade”, a essência, a última realidade, aquele que subjaz todas as coisas e se expressa nos Cinco Elementos do mundo: água, fogo, terra, ar e o vazio (SAUNDERS, 1960).

Buda Vairocana

FONTE: KUNST (2012).

O Tathāgatagarbha aponta para a realidade de que todos os seres possuem, de forma inerente, a Natureza de Buda e, por conseguinte, são Budas latentes ou em “potencial”. Esta Natureza é na maioria das vezes ignorada pelos seres que, prejudicados pelos kleshas (ilusões, vícios e outros estados negativos da mente), não conseguem perceber a Verdade de suas próprias existências e acabam, por isso, caindo no sofrimento dos reinos inferiores do Samsara. Os kleshas, por sua vez, não fazem parte do Tathāgatagarbha, que é imaculado. (MUNIZ, 2014)

“De modo semelhante, bons filhos, quando vejo todos os seres com o meu olho búdico, vejo que escondido dentro dos kleshas da ganância, do desejo, da raiva e da estupidez, está sentado, augusto e imutável, a sabedoria do Tathagata, a visão do Tathagata e o corpo do Tathagata. Bons filhos, todos os seres, embora se encontrem com todos os tipos de kleshas, têm um Tathagatagarbha que é eternamente imaculado e que está repleto de virtudes não diferentes das minhas.”

(TATHAGATAGARBHA SUTRA, 1995, p. 2)

Imagine uma cebola e suas camadas, o núcleo da cebola seria a Natureza de Buda presente em todos, e as camadas, as ilusões e vícios. Os seres quando olham para si não enxergam o núcleo, e para que mudem esta situação, terão que retirar diligentemente camada por camada até perceberem-se como realmente são. Os kleshas somente ocultam o Tathagatagarbha.

O conceito de Tathagatagarbha, apesar de contextualmente aparecer em todos os sutras e tratados Budistas, é exposto mais claramente em um conjunto de dez sutras, tais como Tathagatagarbha-sutra, Srimaladevi-simhanada-sutra e o Mahaparinirvana Mahayana Sutra, bem como o tratado Ratna-gotra-vibhaga. Basicamente, estas obras expõe o Tathagatagarbha de duas maneiras: como o Atman (Alma Universal) e Gotra (a totalidade de seres e fenômenos), em oposição ao conceito de atman individual, ao qual o Budismo rejeita. No Budismo não há continuidade da personalidade (pudgala, sct), quando os seres morrem, por não haver mais causas e condições propícias para que subsistam, suas personalidades deixam de existir. (MUNIZ, 2014)

Contudo, existe algo que “não morre”: aquilo que é “não nascido”, isto é, a vida como um Todo (nossas personalidades mortais são apenas manifestações condicionadas deste Todo). Desta maneira, a vida pode ser compreendida, então, como se todos os entes e fenômenos fossem, ao mesmo tempo, além de “indivíduos”, o Todo, ou seja, “organismos interdependentes” e transitórios de um mesmo sistema eterno. Desta percepção, como será visto a seguir, nasce a ética Budista, pois, “essa interdependência [deve] sensibilizar os seres humanos para a necessidade do cultivo de laços de uma solidariedade simbiótica e global com todas as criaturas” a fim de se minimizar o sofrimento mútuo. (ANDRADE, 2015, p. 17)

A “Alma Universal”, ou melhor, a Vida, tem uma lógica bem determinada: os animais sabem como sobreviver, não é preciso ensinar os órgãos do corpo a realizarem suas funções, tampouco, as células a se dividirem, ou a gravidade ou qualquer lei física a agir. É evidente que existe uma sabedoria toda penetrante que impulsiona os fenômenos a executarem suas próprias naturezas. Esta sabedoria, o fundamento último da existência, do vir-a-ser e do devir, é a “Sabedoria da Vacuidade” (shunya prajña) e esta definição se confunde com a própria ideia de Tathagatagarbha.

Shunya prajña é exatamente a noção de que todos os fenômenos são condicionados, vazios de existência essencial e apenas conjuntos de agregados. Os fenômenos só podem ocorrer, de acordo com suas leis próprias, quando causas e condições apropriadas se fazem presentes. Essas leis são incompreendidas pelo ser humano e, na maioria das vezes, fogem do nosso controle. (MUNIZ, 2014)

A carreira Budista consiste em se viver de acordo com a Natureza Iluminada (Tathāgatagarbha). A ideia central é retornar à Verdade atemporal desvelada na compreensão genuína do Tathāgatagarbha: entendendo, assim, como se dá a vida e a realidade sem ilusões e apegos. Este é o conceito de “Iluminação”. Essa concepção de vida não é uma revolução no sentido esquerdista do termo, isto é, não é uma proposição de uma “nova verdade” subjetiva e construída através do homem, mas sim um regresso à Verdade que sempre esteve inscrita em nós, mas que se encontrava ocultada pelos kleshas. Esta Verdade, que é a mesma para todos (universalmente comunicável), nos impulsiona a vivermos de maneira ética.

A Natureza de Buda, ou seja, o Buda Vairocana, é eterna, logo, sempre esteve dentro dos seres em todas as épocas. Em períodos de degenerescência moral as pessoas sufocam esta Verdade com ilusões efêmeras e tendem a agir de forma egoísta e cruel; por essa razão, de tempos em tempos, segundo os Sutras, Budas aparecem no mundo para guiar seus filhos corrompidos. (SUTRA DO LÓTUS, 2011)

Deste modo, Tathāgatagarbha, embora não seja um deus transcendente, “carrega em si” a Verdade Eterna, a sólida referência a qual o Budismo baseia toda sua moralidade. Não pode haver uma moral objetiva, como acontece no Budismo, sem uma referência desse tipo. O “Embrião do Tathagata” nada mais é do que o Dharma inscrito de forma inata nos seres, a “Semente Búdica” que repousa silenciosamente no centro de tudo o que existe e se manifesta. Esta semente é acessada, pelo ser humano, por meio da consciência que vai se despertando na medida em que o praticante desenvolve sua carreira Budista.

A título de ilustração, Kant defendia algo assim: as leis morais ou éticas “existem” de forma inata nas mentes dos seres humanos; elas não são reveladas por um deus, mas acessadas pela “Pura Razão”. Isto quer dizer que a Verdade não perde seu caráter único e atemporal, por estar dentro da mente. As leis morais nada mais são do que os Ensinamentos dos Budas, funcionam como as constantes leis físicas, com a diferença de que as leis morais dizem como as pessoas devem se comportar, não dizem o que as pessoas de fato farão. (KANT, 1980)

Spinoza, quase como um Buda ocidental, pela semelhança de sua filosofia com o Dharma em muitos aspectos, também defendia uma espécie de imanentismo, ou seja, de que o Sagrado não está fora, mas dentro da mente. Este pensador defendia uma moral única, portanto, universal, acessada pela razão (ESPINOSA, 2013). Para ratificar esta ideia de universalidade e atemporalidade do Dharma, cito, por último, os Sutras do Lótus e de Amitaba (SUTRA CURTO DE AMITABHA, 2015), escrituras que relatam histórias de personagens do panteão Budista que pregam o mesmíssimo Dharma em universos ou mundos diferentes e em diferentes épocas, separadas, muitas vezes, por milhões de anos.

Enfim, a caminhada Budista consiste na identificação do homem com sua própria natureza, para que este viva, assim, em conformidade com o Dharma. Essa “forma correta de vida” é desvelada mais e mais na medida em que a condição primordial de UNIDADE com o Tathāgatagarbha é percebida.

Segundo a Tradição Tiantai, não existe um propósito para a existência; simplesmente as coisas acontecem, se movimentam, se assentam e vão buscando suas condições para a sobrevivência, isto é, esta tradição rejeita a causalidade final. Um vulcão parece não ser bom para os humanos, porém, atua conforme suas próprias diretrizes naturais e suas funções, segue o fluxo de sua “sabedoria intrínseca”, ou seja, não contradiz às suas próprias leis que são oriundas de causas e condições. Todos os fenômenos são impermanentes e seguem seu próprio fluxo. Atuam de acordo com uma lógica interna, um direcionamento inerente e todos são causados e condicionados. Quando estas causas e condições desaparessem os fenômenos deixam de existir. Presentes as causas e condições, voltam a se manifestar, estão latentes, “são” em potência – em um constante devir.

Da mesma maneira, a mente tem sua própria natureza. Sendo assim, causas e condições fazem com que ela tome uma ou outra direção. Um pedaço de barro pode se transformar em um vaso muito útil e belo. Existe essa “potência” no barro. Assim como é igualmente possível ignorar o barro e considerá-lo apenas sujeira. Tudo depende das causas e condições criadas. A mente pode revelar sua verdadeira natureza, o Tathagatagarbha, ou pode ignorar essa potencialidade e preferir viver de forma medíocre. Há ambas as possibilidades. O ser humano pode ser um Buda ou um ser perverso. São os dois extremos de um mesmo mundo fenomênico. Ser vaso ou sujeira.

O Sutra do Lótus diz que as pessoas veem o mundo em chamas; mas, que o “Mundo de Buda” nunca desaparece e que o próprio Buda, metaforicamente, continua lá pregando continuamente (SUTRA DO LÓTUS, 2011). Isto nada mais significa do que afirmar que é a mente quem diferencia entre ver o mundo em chamas ou o mundo de pureza, como aquele que reconhece o joio em meio ao trigo.

Todas essas possibilidades fazem parte de uma mesma realidade, isto é, são interpenetradas. É possível ver o mundo prático real, como “imperfeito”, contudo, ao mesmo tempo, é possível perceber a essência de todos os fenômenos, sua vacuidade, sua interdependência e a forma como o Dharma provoca o despertar para a Verdade. Ver o “Mundo de Buda” é exatamente perceber que é possível se sentir livre mesmo em meio esta aparente dualidade, enxergando tudo com uma mente Iluminada, sem, no entanto, inventar uma suposta perfeição ou propósito divino para a realidade (Samsara, sct). Isto é, ver as coisas como elas são, sem invencionice ou ilusão de propósitos eternos. Aprender a agir da forma mais correta e sábia em um mundo em chamas, esse é o nosso Dharma, isso é o que somos.

Para o Budismo, viver corretamente nesse mundo não é agir arbitrariamente, como muitos dizem. Alcançar o conhecimento da Realidade Última (ou seja, que tudo é condicionado e interdependente, que todos os fenômenos surgem e desaparecem continuamente e que os seres são frutos de uma imensa teia de relações causais) é a única chance que o ser humano tem de alcançar a felicidade, aprendendo a lidar melhor com os acontecimentos de sua vida. Isto é, este despertar proporciona capacitação à mente em perceber os fenômenos e ao mesmo tempo não se deixar abater por eles.

Ao se observar o mundo fenomênico com serenidade e sabedoria, obtém-se o “olho divino do Buda”, que funciona como uma âncora inabalável em meio a um mar de ilusões. Este é o núcleo do ensinamento Tiantai.

Ao se penetrar nesse mistério, constata-se que a realidade não precisa ser boa ou má. Ela apenas segue seu fluxo natural. É preciso saber viver sabiamente em meio ao que é, ou seja, entrar em sintonia com um mundo condicionado, causado e cheio de “incômodos”. O cerne do ensinamento do Buda, não somente na perspectiva Tiantai, mas como um todo, é a sabedoria; estar afinado com a “Sabedoria da Vida”, a fim de que o sofrimento dos seres sejam minimizados e a comunhão mais plena entre os entes seja realizada. Esta é a sabedoria que desvela a Realidade de que os entes, em essência, são uma unidade.

Não é lícito cortar as relações causais da vida, ou seja, interferir na “sabedoria intrínseca” dos fenômenos. Não se deve lesar, interferir no ciclo de vida dos outros seres, ferir, ou causar dor. Todos os seres são manifestações de um mesmo fluxo de fenômenos. Somos um mesmo organismo, não separados e não duais.

COMPARAÇÃO ENTRE A ALMA DESCRITA POR TOMÁS DE AQUINO E A ALMA SEGUNDO A CONCEPÇÃO TIANTAI

Colocados ambos os pontos de vista a respeito da concepção entre a Alma cristã de Tomás de Aquino e a concepção de “Alma” Budista da Escola Tiantai, vamos à parte mais importante do trabalho, a comparação entre estes dois conceitos.

Primeiramente, é preciso explicitar que o termo Alma no Budismo é um tanto quanto inadequado, e é, inclusive, não reconhecido pela maioria das Escolas. O uso da expressão nesse trabalho é apenas uma aproximação com o conceito de alma cristã. Esta aproximação tem o intuito de tornar possível o estudo comparativo, de maneira simplificada, compatível ao entendimento do leitor ocidental. Como já descrito, a melhor forma de definir como se dá o movimento e a vida na perspectiva Budista é pelo uso das palavras Tathagatagarbha, Gotra ou Natureza Búdica.

As concepções de alma cristã e budista, na verdade, são bastantes diferentes, coincidem somente no que diz respeito a explicar como ocorre o movimento, autônomo ou não, dos seres.

Entre essas divergências, a principal é a de que no cristianismo as almas são individualizadas para cada ente, ou seja, um cachorro específico tem uma alma diferente de seu irmão, por exemplo. A macieira do seu quintal tem uma alma distinta da macieira do seu vizinho. Eu, como ser humano, tenho uma alma que é outra do meu pai e assim por diante. Já no Budismo, há “apenas” uma Alma que dá vida ao Todo.

Os entes que compõe este Todo vivem por participarem desta Alma única e se diferenciam apenas por características de suas respectivas espécies. Uma adquire mais conhecimento que a outra, mas isso é apenas uma vantagem acidental e depende de fatores causais. Não é a Alma, no Budismo, que determina os limites formais dos entes, estes são determinados por suas características físicas/biológicas. Por exemplo, um bebê não consegue desenvolver pensamentos mais complexos que os de um animal de estimação; e se um homem permanecesse na infância por, digamos, quarenta anos, os únicos pensamentos que “sua alma” poderia formular seriam oriundos das sensações e paixões infantis por brincar e comer.

Para o pensamento Tendai, o homem ultrapassa os demais seres, racionalmente falando, apenas por acidente; porque seus órgãos, dos quais seus pensamentos dependem, adquiriram modificações que se deram devido às características de desenvolvimento de sua espécie, o que não acontece com os órgãos das bestas. Nada faltaria à alma que move um animal irracional, quando “atuando” nos órgãos de uma pessoa humana, a potencialidade para adquirir todo o conhecimento comum aos seres racionais. Da mesma forma, o homem não pode exercer funções que são peculiares aos outros animais, mas poderia se a alma que o move “estivesse” nos órgãos de um outro animal. Assim, um ser humano nunca poderia voar (de maneira natural), pois está limitado à sua descendência de animal terrestre; suas características formais não dependem da alma, mas puramente de sua taxonomia.

No Budismo, o florescimento de certas capacidades que distinguem os seres em determinados tipos ocorreram devido a causas e condições propícias de desenvolvimento das espécies ao longo dos anos, no mais clássico estilo darwinista. A alma é apenas a geratriz deste movimento e deste desenvolvimento constante dentro de uma certa regularidade e ordem necessárias à subsistência do Todo.

A natureza deu a cada animal aquilo que este precisava para sobreviver: à águia, a visão aguçada e o privilégio de voar; aos roedores, a velocidade; aos felinos, a agilidade; aos cães, o olfato, etc. O homem, pela mesma razão, desenvolveu o raciocínio para fabricar armas e se defender. Somente esta diferença, que é física, não ontológica, nos diferenciaria dos demais entes.

“O instruído e nobre discípulo não considera a forma, sensações, percepção, constituintes mentais ou consciência como alma; nem a alma como um desses agregados, nem tais agregados como contendo a alma, nem a alma como contendo os agregados. Por isso se diz que um instruído e nobre discípulo não está preso a nenhum agregado da existência, interno ou externo.”

(BEISERT e MAIA, 2014)

No cristianismo, o homem é superior ontologicamente aos demais animais e entes compostos de matéria e forma. O homem possui um tipo de alma diferente, chamada de intelectiva, os demais animais uma alma sensitiva e os vegetais uma alma vegetativa, enquanto que os minerais não são dotados de nenhum tipo de alma.

Esta suposta superioridade ontológica dá ao homem o direito de subjugar os demais entes para sua própria alimentação, bem-estar e conforto. A utilização de animais para propósitos humanos é, portanto, considerada como um proceder ético.

Já no Budismo, por não haver mais de uma alma, não há hierarquia ontológica entre os seres, pois todos são movidos por uma mesma alma universal. Até mesmo uma pedra participa desta alma, uma vez que também possui suas leis internas que mantém todos os seus constituintes coesos como um ente.

Esta suposta igualdade ontológica entre os entes implica que o homem não deve deliberadamente matar os animais em nenhuma hipótese. Ou seja, o ser humano não tem direito de exploração sobre as demais formas de vida. A utilização de animais para propósitos humanos é, portanto, considerada como um proceder anti ético. Inclusive, a Escola Tendai, como já mencionado, é vegetariana.

Segundo o budismo, os seres são insubstanciais e estão em constante transformação, existem devido a uma cadeia causal praticamente infinita, resultado da influência de ações presentes e pregressas e compostos de uma complexa interdependência entre órgãos, tecidos, ossos e outras estruturas típicas de cada ente. Esta cadeia causal ocorre segundo uma Sabedoria intrínseca imanente, que é a própria Alma Budista, que contém todas as leis universais suficientes para que a matéria, além de não ser amorfa, tenha constituição própria e saiba realizar-se segundo fenômenos incessantes e bem determinados.

Outra consequência lógica do pensamento budista é que, como os seres são insubstanciais, ou seja, não tem uma alma perene individualizada, não podem viver eternamente. Isso é válido para todos os entes, até mesmo para o homem. Ou seja, todos os seres são marcados pela finitude sem exceção nenhuma.

A alma única é eterna e se manifesta em um tipo de criação e destruição ininterruptas da seguinte maneira: entes menores se agrupam de acordo com a Sabedoria da natureza para formar entes maiores e depois se decompõem e o ciclo se reinicia em um tipo de equilíbrio orgânico. Entretanto, a vida dos entes individuais é marcada pela efemeridade, assim, não há uma outra vida a ser experimentada após a morte, a única existência possível para todos é aqui e agora. Este processo cíclico e dinâmico pode ser sintetizado nas palavas de Montaigne, conforme se segue:

“Os que se dedicam à crítica das ações humanas jamais se sentem tão embaraçados como quando procuram agrupar e harmonizar sob uma mesma luz todos os atos dos homens, pois estes se contradizem comumente e a tal ponto que não parecem provir de um mesmo indivíduo. Mário, o Jovem, ora parece filho de Marte ora filho de Vênus. Dizem que o Papa Bonifácio VIII assumiu o papado como uma raposa, conduziu-se como um leão e morreu como um cão. […] Não somente o vento dos acontecimentos me agita conforme o rumo de onde vem, como eu mesmo me agito e perturbo em consequência da instabilidade da posição em que esteja. Quem se examina de perto raramente se vê duas vezes no mesmo estado. Dou à minha alma ora um aspecto ora outro, segundo o lado para o qual me volto. Se falo de mim de diversas maneiras é porque me olho de diferentes modos. Todas as contradições em mim se deparam, no fundo como na forma. […] E quem quer que se estude atentamente reconhecerá igualmente em si, e até em seu julgamento, essa mesma volubilidade, essa mesma discordância. […] Somos todos constituídos de peças e pedaços juntados de maneira casual e diversa, e cada peça funciona independentemente das demais. Daí ser tão grande a diferença entre nós e nós mesmos quanto entre nós e outrem: ‘Crede-me, não é coisa fácil conduzir-se como um só homem’”.

(MONTAIGNE, 2000, p. 184)

O universo para o budista não é uma coisa pronta, é dinâmico. Para este universo não há seres privilegiados; com ou sem o homem o cosmos continua sua criação incessante. De modo muito avesso ao entendimento cristão que afirma ser o homem a “coroa da criação” (entre os compostos de matéria e forma), ou seja, um ser privilegiado e criado segundo um desígnio eterno. Para o budista, nossa raça é apenas mais uma das formas de vida que participam do planeta; não tem privilégios eternos e está sujeito à mesma cadeia de nascimento, envelhecimento, doença e morte como qualquer ser vivo.

Se não há vida eterna, nem algum desígnio ao homem, não faz sentido então falar sobre salvação ou condenação. Não faz sentido falar sobre pecado ou coisa parecida. A espiritualidade budista é para ser vivida em uma mesma e única vida. Diferentemente, no cristianismo, a espiritualidade é desenvolvida em prol do conhecimento da causa primeira, que ocorre uma vez em que o composto alma-corpo é decomposto com a morte física. O cristão acredita que após a morte (caso seja salvo, é claro) poderá contemplar Deus eternamente em uma visão beatífica. Para o budismo, por outro lado, a morte é o fim de todos os sofrimentos, o Nirvana. Essa perspectiva de vida é bastante distinta do cristianismo, pois com isso é desfeita toda a noção de justiça universal. Uma pessoa que comete o mal precisa ser punida pela justiça dos homens, ainda em vida, pois não há outro tribunal celestial. O pecado também perde seu significado, pois não há o olho onipresente de Deus que a todos recompensa e pune.

Mas não existir a concepção de pecado não faz do budismo Tiantai uma religião niilista ou hedonista. Apesar de não haver menção de uma alma eterna, salvação ou Deus, não se pode afirmar que o budismo não preza por uma vida de espiritualidade. Para a Escola de Zhiyi, encarar a finitude é a principal barreira para se viver uma vida plena e verdadeira. É no desespero com a finitude, que o praticante retira forças para enxergar alguma positividade na vida.

Segundo o budismo, de um modo geral, as religiões teístas superestimam o papel do homem nessa vida, levando-os a ter expectativas muito grandes a respeito da própria existência, enquanto que viver é uma coisa simples e sem muito mistério. A espiritualidade budista é simplesmente um tipo de ataraxia, isto é, uma busca por uma vida sem muitas perturbações ou inquietações da mente. O budista não espera muito mais da vida além de atingir um comedimento face aos relacionamentos, às posses e aos prazeres; ciente de que tudo é efêmero. Para se viver bem se faz necessário aceitar a finitude como uma regra que não se pode mudar.

A espiritualidade budista se limita na diminuição de expectativas de felicidade perpétua e em se saber lidar com as vicissitudes da melhor forma possível. O praticante é disciplinado de modo a aproveitar os momentos bons, estando ciente de que eles são passageiros.

A ideia é levar o homem a viver o aqui e agora, privilegiando as coisas que realmente importam e desconsiderando as coisas supérfluas e inúteis. A vida deve ser enxergada como um privilégio e não deve ser desperdiçada. Segundo o budismo Tiantai, a concepção eternalista, como a proposta pelo cristianismo, além de ser uma ilusão, uma vez que o ser humano é tão finito quanto qualquer outro ente, induz as pessoas a adiarem coisas que deveriam ser feitas no momento presente. O propósito de vida budista não tem como fundamento um Deus, mas é construído pelo próprio budista quando este se imbui em fazer seu micromundo o melhor possível, tanto para para si mesmo, quanto para as pessoas e seres que o rodeiam.

Fica evidenciado até aqui que a alma budista “faz os papéis” de Deus e da alma do cristianismo. No cristianismo é preciso se separar a ação de Deus no tocante à criação e às leis universais que regem a vida, da ação de almas individualizadas que são responsáveis pelo “movimento interno”, vontade e o intelecto (no caso do homem) dos seres. Ou seja, no budismo uma única alma tanto cria, regula e movimenta todos os indivíduos com o objetivo de se garantir a manutenção do Todo. Se a alma toma os dois papéis, logo, a figura de Deus perde completamente sua função e seu sentido, sendo, desta forma, extremamente plausível afirmar que o budismo é ateísta, mas não ateísta em um sentido materialista ou contemporâneo do termo.

A espiritualidade budista pode ser entendida em algum sentido, como uma espiritualidade “mais leve”, uma vez que não ensina sobre castigos ou recompensas eternas. O budista pode ficar com sua consciência tranquila, mesmo sabendo de suas imperfeições e vícios. Ele não será torturado em um mar de enxofre após a morte por algum pecado inconfesso e, tampouco, precisa fazer conjecturas sobre uma vida de contemplação eterna.

Entretanto, isso não significa que o budista, livre da preocupação do pecado original, não deva se preocupar com a ética. Pelo contrário, é muito fácil de perceber que as escrituras budistas dão forte ênfase ao proceder moral e nobre.

Exatamente por fazermos parte do Todo, é imprescindível agirmos de forma a garantirmos o equilíbrio deste Todo. Assim como há leis internas no mundo que regem o movimento e a criação/destruição ininterruptas, pode-se dizer que também há leis morais intrínsecas que devem ser seguidas para que a harmonia das espécies não seja afetada. Estas leis morais são chamadas de Dharma.

O ser humano, como vive coletivamente, deve agir de forma pacífica e justa para assegurar sua sobrevivência nesse mundo. A cada vez que o Dharma é rejeitado e as pessoas resolvem viver suas “próprias leis”, nossa espécie se desorganiza e se torna vulnerável, caminhando a passos largos para a extinção e a infelicidade. Para agir bem coletivamente, é preciso agir bem também “internamente” e é por isso que o budismo enfatiza a necessidade de autodisciplina. Disciplinar a mente é extremamente importante para se adquirir um satisfatório controle sobre as próprias ações e desejos e adquirir a consciência de que todos os seres são igualmente dignos por conterem uma mesma “Alma”, que é a Natureza de Buda. Quando o homem percebe esta unidade entre todos os entes, ele deixa de ser egoísta, pacifica seus desejos, e começa a viver em função desta unidade. Viver consciente desta unidade é viver de maneira bem-aventurada.

A felicidade no cristianismo consiste em se viver de acordo com a vontade de Deus, que nos criou para que nos realizássemos conforme nossa natureza; esta felicidade começa aqui na Terra, mas é estendida aos fiéis por toda a eternidade no Reino dos Céus. Viver a vontade de Deus é agir conforme “a razão superior”, que é a faculdade da alma mais nobre do homem, que lhe auxilia a elencar de maneira hierárquica os valores mais importantes a serem considerados na vida. Já no budismo, uma vez que não há eternidade para os indivíduos, a felicidade é efêmera. A mensagem budista ao homem se restringe ao Reino da Terra.

Expostas as divergências entre as tradições, apontemos agora para as convergências.

Pode-se dizer que ambas as religiões têm uma espiritualidade, ou seja, há uma concepção cosmológica espiritual. No cristianismo, baseado em uma criação por um Ser espiritual, ou seja, um Deus que cria um homem também espiritual à sua imagem e semelhança. Enquanto no budismo, o Tathagatagarbha é o “espírito movente” responsável pela criação de um homem que participa deste mesmo espírito. Em ambas as religiões, o homem deve “se encontrar” com sua verdadeira natureza que é realizada através de uma vida de devoção à espiritualidade e busca pela sabedoria.

Tanto no budismo quanto no cristianismo, o homem tem a verdade inscrita em “seu coração” de maneira inata. A diferença consiste em que no cristianismo isso só não basta, pois é necessário a interferência de Deus os dos seres puramente intelectivos para a total redenção. Até mesmo a razão superior pode ser maculada pelo pecado.

A concepção de alma, tanto na teologia quanto na doutrina Tiantai, tem como consequência a necessidade de se exercer uma vida moral.

No cristianismo porque a sabedoria de Deus revela ao homem a necessidade de se buscar a reta razão e as virtudes. Ter uma vida virtuosa é colocar a razão como dominante em relação aos desejos do corpo. É também, perceber que todos os homens são objetos do amor de Deus e que portanto, todos são dignos dos mesmos direitos.

No budismo porque uma vez que o homem se “reencontra” com sua Natureza Iluminada, percebe-se como parte de uma cadeia causal que precisa manter-se equilibrada. Este equilíbrio é garantido pelo autodomínio e pela consciência os efeitos que nossas ações produzem no meio (karma). Viver de forma desregrada e egoísta é uma forma de autoaniquilação.

Ambas as religiões enfatizam ser imprescindível voltar-se a algo maior que si mesmo, a algo Sagrado. Ou seja, é preciso se apoiar em um fundamento sólido para se viver bem, em Deus, no cristianismo, e no Dharma, no budismo. A mensagem cristã é acessada por meio de revelação divina e por meio da razão, já a mensagem budista é acessada exclusivamente por meio da razão, em uma busca mais introspectiva.

Tanto o cristianismo quanto o budismo “acreditam” em uma verdade universal e objetiva. Não há espaços para verdades relativas ou subjetivistas nestas concepções religiosas. Deste modo, budismo e cristianismo ensinam conceitos atemporais e válidos para todos os seres humanos. Por exemplo, a caridade sempre será uma verdade, da mesma maneira, a fé, a temperança, a tolerância, a compaixão, a concentração, etc.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Foi realizado neste trabalho uma humilde comparação entre os conceitos de Alma budista e cristã, segundo as concepções do Budismo da Escola Tiantai e a teologia de Santo Tomás de Aquino, respectivamente. Constatou-se que há divergências cruciais entre as definições, mas, curiosamente, também existem convergências.

Basicamente, a Alma cristã é individualizada (há uma para cada ser), enquanto a Alma budista é única e permeia todos os entes. As características formais de cada ser são determinadas, segundo Tomás, pela Alma. Assim, a razão humana é determinada pela sua “alma racional”, que seria superior à alma puramente sensitiva dos animais ou à alma vegetativa das plantas. Disto conclui-se que no cristianismo há uma hierarquia de almas, que culmina no homem como portador da alma mais evoluída entres os seres compostos de matéria (pois existiriam supostos seres puramente imateriais com almas ainda mais superiores ontologicamente que a do homem, como as almas dos anjos, por exemplo). Esta hierarquia outorga ao homem poder sobre as demais criaturas, isto é, todas as coisas existem em função do homem e podem a ele servir.

No budismo todas as almas são iguais e as características formais são acidentais, causadas somente pelas composições “biológicas” ou “químicas” de cada ente. O homem nesta concepção não seria racional por causa de sua alma, mas por causa de sua descendência, por trazer características da espécie humana. O mesmo raciocínio pode ser estendido aos vegetais e até mesmo aos minerais. Enquanto no cristianismo os minerais não contém alma, para o budismo até mesmo os “inanimados” são permeados pela alma. Até mesmo uma pedra tem seu “movimento interno” que garantiria sua coesão como um ente distinto.

Alma e Deus para o cristianismo teriam “funções” distintas. Deus é o criador, aquele que cria o mundo para o homem e o homem para um fim, para que este volte-se ao criador e viva feliz. A alma seria algo individual, responsável pela vontade, pelo movimento interno dos seres e pela forma.

A “alma do Todo” budista, o Tathagatagarbha, faz um papel duplo, é tanto o criador, quanto o responsável pela vontade e pelo movimento interno dos seres. Porém a “criação” budista não é algo pronto, com um propósito voltado à espécie humana. A criação budista é algo dinâmico, que acontece a cada momento, a cada nascimento e morte dos entes, em uma evolução contínua; é uma criação que não privilegia esta ou aquele espécie.

O Tathagatagarbha nada tem a ver com o Deus cristão. Não é um ser pessoal que escuta orações, oferece bênçãos, concede leis morais ou interfere diretamente na vida do homem. O Tathagatagarbha é, resumidamente, uma “ação constante” que, ao permear toda a matéria, imprimi-lhe a vida e suas leis imanentes, tanto leis físicas quanto leis morais universais. Estas leis (conhecidas como Dharma) estão inscritas nos seres, não são reveladas por um criador.

A “alma budista” contém todas as qualidades espirituais benéficas dos seres. Ela induz nos seres o desejo pela Iluminação e ela própria torna possível a obtenção da Iluminação (uma vez que a Iluminação, por meio do Tathagatagarbha, encontra-se de forma latente dentro da mente).

O Tathagatagarbha alimenta espiritualmente cada ser em quem ele se encontra. Para o homem, o acesso a esta sublime Natureza se dá por meio de um coração puro e pela introspecção desinteressada, ou seja, por uma sincera busca pela Verdade.

O Tathagatagarbha é o fundamento de toda a realidade. Nenhuma forma de linguagem pode exprimir plenamente a totalidade de seu mistério e perfeição; qualquer palavra ou conceitualização são inadequadas. Quando o vento se move, ali está o Tathagatagarbha. Quando o pássaro alimenta seu filhote, ali está o Tathagatagarbha. O Tathagatagarbha também está no movimento do sol e da lua. O Tathagatagarbha também está presente no nascer de uma nova vida. Na doença também se encontra o Tathagatagarbha. E, da mesma forma, na morte ele também se esconde.

Fica evidenciado, então, que Tathagatagarbha não é Deus e que esta ideia de deus ou deuses no budismo é algo sem importância. O budista não crê ou adora deuses ou deus e nada espera ou pede a eles.

O budismo é uma doutrina humana, desenvolvida por humanos para que estes se realizem em sua natureza. A verdade budista deve ser procurada não em algo externo ao praticante, mas dentro dele mesmo. O fiel budista olha para dentro de si em busca de sua “redenção”, enquanto o cristão procura sua redenção em uma verdade transcendente.

O budismo não trata de fatos considerados sobrenaturais, doutrinas inobserváveis, vida após a morte, espíritos ou qualquer coisa do gênero. O budismo não se ocupa de superstições e não é uma religião utilitarista, isto é, não é ponte para se conseguir saúde, fama, dinheiro ou influenciar por “meios místicos” o destino da vida humana ou os fatos pertinentes a ela.

Enfim, apesar de tão numerosas diferenças entre o budismo e o cristianismo, este artigo também demonstrou haver algumas convergências interessantes entre as religiões estudadas. Entre elas destaca-se a ideia de que ambas acreditam em uma verdade universal e são avessas ao subjetivismo e ao relativismo. Ambas também afirmam haver necessidade de que o homem se autodomine, tenha conduta ética e saiba elencar verdadeiras prioridades e verdadeiros valores. Finalmente, tanto o budismo quanto o cristianismo também falam da importância do homem em realizar-se em sua própria natureza racional.

REFERÊNCIAS

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GLOSSÁRIO

Amitābha, Amitayus (sct), Amida (jpn), Āmítuófó (chin): nome comumente usado para designar o Buda da Infinita Luz e da Infinita Vida. Um Buda mítico venerado por todas as escolas Mahayanas, como a Tiantai, Esotérica, Zen, e mas mais particularmente a escola da Terra Pura. Este Buda reside na Terra Pura do Ocidente (Terra da Sublime Bênção ou Sukhavati, onde qualquer um pode renascer contanto que recite sinceramente o nome de Amitabha. (SUTRA TRANSLATION COMMITTEE, 2003)

Anatman (sct): o “não eu” ou o “não ego”. Ausência de um eu permanente, ego imutável ou alma. O ser humano é simplesmente uma união dos elementos materiais, dos cinco sentidos e da mente. A personalidade é insubstancial e, portanto, efêmera. (idem)

Arhat (sct): um “budista santo”, que atingiu a liberação do ciclo do Samsara; geralmente vive uma vida monástica de acordo com os ensinamentos de Buda. (idem)

Bodhisattva (sct): aquele que aspira a Suprema Iluminação para si mesmo e para todos os seres. (idem)

Buda: o “Supremo e Iluminado”. De acordo com a tradição Mahayana, Buda Sakyamuni (Siddhartha Gautama, o Buda histórico) é apenas um de uma infinidade de Budas e todos os homens podem se tornar Budas se muito se esforçarem. (idem)

Budismo Esotérico: o termo esotérico é dado às escolas budistas que usam mantras e mudras, como principais práticas religiosas. Os ensinamentos esotéricos (secretos) são encontrados nas escolas Tendai, Shingon e também na Tibetana. (idem)

Caminho do Meio ou o Caminho Óctuplo: é compreendido em 8 ações:
1. Conhecimento correto dos ensinamentos do Buda. 2. Atitude correta – pensar o bem. 3. Palavra correta – não mentir e não usar palavras ásperas. 4. Ação correta – não prejudicar nenhuma pessoa ou animal. 5. Ocupação correta – que não cause sofrimento aos outros (empregos que não prejudiquem pessoas ou qualquer ser senciente). 6. Esforço correto – pensamento antes da ação. 7. Pensamento correto – manter-se alerta e consciente. 8. Meditação correta – ter uma mente calma e concentrada. (VASCONCELOS, 2013)

Compaixão: percepção do estado de miséria e sofrimento dos demais seres e o desejo em socorrê-los. Percepção de que os demais seres precisam compreender a insubstancialidade e a efemeridade dos entes (vazio) para atingirem a felicidade. (SUTRA TRANSLATION COMMITTEE, 2003)

Delusão: crença em algo que contradiz a realidade. No budismo, a delusão é a falta de conhecimento sobre a real natureza das coisas (Natureza de Buda) ou a ignorância sobre o verdadeiro significado da existência. (idem)

Dharma: os ensinamentos dos Budas; lei, doutrina. A palavra sânscrita Dharma é um termo multivalente e ambíguo. Em seu sentido mais amplo significa “aquilo que é rapidamente seguro ou mantido” ou “alguma coisa que mantém um certo caráter sempre e se torna um padrão de coisas”. O Dharma pode ser definido das seguintes formas: 1. Lei, verdade, justiça. 2. Normas universais ou leis que governam a existência humana. 3. Os ensinamentos do Buda; o cânone Budista. 4. Bons atos que não têm contém impurezas. 5. A consequência de uma ação (karma); o resultado de ações prévias que trarão consequências. 6. O universo inteiro com o objeto do pensamento. Em outros contextos, “O que tem ser e tem seus próprios atributos” sendo praticamente sinônimo de “coisa”. A palavra issaiho (jpn), “todos os entes”, é comum na literatura Budista e é equivalente ao termo “fenômeno” ou “mundo fenomênico”. No Budismo Esotérico o “Corpo do Dharma” (Dharma-kaya, hosshin) é o Corpo de Buda que contém todos os dharmas, todas as “coisas” do universo. (SNODGRASS, 1997)

Dharmas condicionados: descrição dos vários fenômenos do mundo, cujos efeitos são originados por inumeráveis causas. (SUTRA TRANSLATION COMMITTEE, 2003)

Hinayana: o “Pequeno Veículo”, uma das duas maiores tradições budistas, a outra é o Mahayana. Seguem um conjunto menor do cânone, somente os escritos em pali. Os seguidores desta tradição buscam o estado de Arhat (sct), um estado em que se almeja completo desapego às coisas mundanas e a cessação do sofrimento (Nirvana). Se distingue do Mahayana por enfocar a própria iluminação, enquanto o foco do Mahayana é a iluminação dos demais seres. A tradição Mahayana considera o Hinayana apenas como um primeiro estágio de espiritualidade. (idem)

Iluminação (Bodhi, sct): condição espiritual de um Buda. A Iluminação é atingida através de Prajna (sct), em português, sabedoria e Karuna (sct), em português, compaixão. Bodhi é o nome dado ao mais alto grau de meditação quando a mente está desperta e iluminada. (idem)

Ilusão: ver delusão. (idem)

Impermanência: um conceito fundamental do budismo. Tudo o que vêm a existir, perece e está em constante mudança. Não há nada fixo ou parado no universo. (idem)

Karma: se refere a ação e também sobre as consequências das ações. Pode ser entendido com a lei da causalidade, uma combinação de causas primárias com causas secundárias. Por exemplo, uma planta nasce porque tem a semente como causa primeira e a luz e a água como causas secundárias. A doutrina do karma repudia qualquer noção de “destino fixo”, ou seja, as pessoas fazem seus destinos através de suas escolhas e ações. (idem)

Mahayana: O “Grande Veículo”, uma das duas maiores tradições budistas, a outra é a Hinayana. O tradição Mahayana diz que todos os seres contém a Natureza de Buda. Seguidores do Mahayana são chamados de “Bodhisattvas”, eles fazem votos de salvarem todos os seres, com o intuito de que todos realizem suas próprias naturezas, cultivem a sabedoria a alcancem méritos. Uma vez que seus votos são cumpridos, se tornam Budas. Um Bodhisattva nunca deve abandonar os seres e deve ter consciência de que todas as coisas são insubstanciais. (idem)

Mantras (sct): recitações repetidas de palavras, geralmente em sânscrito, praticadas pelos budistas a fim de se interiorizar o Dharma por uma via “supra-racional” ou por um insight (intuição). Um mantra bem conhecido é o “On Mani Padme Hum”. (idem)

Meditação: um dos três maiores componentes da caminhada budista, os outros dois são a moralidade e a sabedoria. A meditação não objetiva somente o relaxamento da mente, mas é usada principalmente como forma de introspecção e mudança comportamental. A meditação não se restringe a permanecer imóvel diante de um altar ou uma parede, mas é também uma prática que deve ser exercida constantemente em meio aos afazeres cotidianos. (idem)

Mudras (sct): gestos ou posturas das mãos que servem para transmitir profundos significados metafísicos durante as cerimônias religiosas, principalmente esotéricas. Estes gestos podem ser vistos em várias figuras e esculturas budistas. Os mudras são usados em conjunto com os mantras para facilitar a meditação. (SAUNDERS, 1960)

Natureza de Buda: causa interna e potencial dos seres em atingir o estado de Buda. Os sutras Mahayanas costumam dizer que todas as pessoas possuem de modo inerente a Natureza de Buda, porém a maioria delas não consegue enxergá-la devido às delusões e maus karmas. (SUTRA TRANSLATION COMMITTEE, 2003)

Nirvana: originalmente significava somente a total extinção do desejo e do sofrimento. Com o passar do tempo ganhou um novo significado de libertação e completa Iluminação. (idem)

Quatro Nobres Verdades: a primeira delas diz que tudo na vida é sofrimento, a segunda diz que o sofrimento é gerado pela ambição ou apego, a terceira, que é possível vencer o sofrimento e a última que o modo de vencer o sofrimento é praticar o Caminho do Meio ou o Caminho Óctuplo (ver “Caminho do Meio”). (VASCONCELOS, 2013)

Samsara (sct): representa os seis estados mentais, chamados também de reinos, os quais os seres humanos estão submetidos. Estes reinos são: o reino dos infernos, o reino dos animais, o reino dos fantasmas famintos, o reino dos humanos, o reino dos Asuras e o reino dos Devas. O reino dos infernos é caracterizado por uma vida de intenso sofrimento e de forte tribulação e confusão mental. O reino dos animais é o reino das pessoas que se deixam dominar pelos seus instintos e pouco se utilizam da razão. O reino dos fantasmas famintos é o reino daqueles que acreditam que a felicidade está no consumismo. O reino dos humanos é o reino do equilíbrio, onde as pessoas conseguem se enxergar exatamente como elas são. O reino dos Asuras é o reino da constante competição. E, enfim, o reino dos Devas é o reino das pessoas auto suficientes, que acreditam já ter alcançado a felicidade e que, portanto, de nada mais precisam. O melhor dos estados mentais é o humano. Todos os demais são estados de sofrimento, inclusive o reino dos Devas, pois os Devas acreditam em felicidade eterna, ignorando a verdade de que tudo no mundo é impermanente. Todos os dias, a maioria das pessoas (exceto aqueles que transcenderam o reino do Samsara pelo Caminho da Iluminação), se translada de um reino para o outro em um ciclo que se repete até o despertar da mente. Somente no reino humano pode ocorrer este despertar. As práticas budistas tendem a fazer com que este movimento cíclico não seja tão instável, a fim de que o praticante fique a maior parte do tempo no reino humano e consiga, com menor dificuldade, adentrar na nobre carreira budista. (SUTRA TRANSLATION COMMITTEE, 2003)

Siddharta Gautama (sct): nome do Buda histórico (581-501 A.C.) quando este ainda era príncipe, filho do rei Suddhodana, em Kapilavastu (antigamente na Índia, atualmente no Nepal). Aos vinte e nove anos, Siddharta deixa o palácio de seus pais, renuncia a vida mundana e parte para uma vida ascética. Aos trinta e cinco ele alcança a Iluminação sentado sob uma figueira. Após a iluminação Siddharta ficou conhecido por outros pseudônimos, entre eles o principal é Sakyamuni (sct), e passou a difundir o budismo e angariar seguidores. Morre aos oitenta anos na cidade de Kushinagar. (idem)

Sofrimento ou Dukkha (sct): a afirmação de que toda existência humana é caracterizada pelo sofrimento é a primeira das Nobres Verdades do budismo. O termo também pode ser traduzido por dor, doença, mal, insatisfação e agitação. Os oito principais sofrimentos são: nascimento, velhice, doença, separação daquele que amamos, convivência com pessoas que não amamos, desejos não satisfeitos, e os sofrimentos relacionados aos cinco Skandas (experiência física, sensações, percepções, formação mental e consciência). (idem)

Sutras: registros dos ensinamentos de Buda. Nos primeiros estágios da história do budismo, os ensinamentos eram transmitidos via tradição oral, somente anos mais tarde foram documentados. Os sutras foram originalmente escritos em pali e sânscrito, mas há muitas obras que estão preservadas apenas em suas traduções chinesas e tibetanas. O estilo dos sutras geralmente seguem a seguinte linha: Buda profere um discurso e após isso há um diálogo com algum discípulo; os sutras são ricos em parábolas e alegorias. (idem)

Vairocana: Buda primordial, representa o Corpo do Dharma do Buda Sakyamuni e de todos os outros Budas. É própria Natureza de Buda, é a totalidade, o cosmos, a suprema sabedoria, é, enfim, a personificação do Tathagatagarbha. (idem)

Vazio (Sunya, sct): um conceito fundamental do budismo que pode ser traduzido como insubstancialidade ou vácuo. O conceito consiste em que nenhum ente tem natureza independente. Os entes são resultados de ações interdependentes (relações com outros entes e fenômenos) e, portanto, não possuem substância própria, alma ou qualquer coisa do tipo. (idem)

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Alma Cristã x Alma Budista
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