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por Marcelo Prati
 
 
A Segunda Nobre Verdade: A Causa do Sofrimento
 
A causa do sofrimento é o desejo. Mas o que isso significa, afinal? A palavra que a gente traduz como “desejo” é trishnā (sct) ou taṇhā (páli) e significa literalmente “sede”. Sua raiz, o radical tṛṣ, está relacionado com a ideia de ansiedade, anelo, ganância, querer para si, desejo de posse. Essa sede que chamamos de desejo acontece em dois níveis:
 
• Nível sensorial: Desejo de satisfação sensorial através da matéria e da corporalidade, na tentativa inútil e frustrada de extrair prazer disto ou daquilo através da relação entre estímulos e sentidos.
• Nível existencial: Desejo de ser (a vontade de possuir uma existência continuada ou eterna) ou o Desejo de Não-Ser (busca da satisfação através da total aniquilação no momento da morte).
 
Esses dois níveis também representam o Tríplice Desejo, que já foi discutido aqui no blog. Mas retomando rapidamente e aplicado aqui na Segunda Nobre Verdade, o desejo atua nas três formas que seguem:
 
1. Desejo por satisfação sensorial: relacionado com a vontade de recompensa através dos órgãos dos sentidos.
 
Simples de entender, acontece quando os estímulos externos e órgãos sensoriais interagem até que a busca pela satisfação torne-se descontrolada e crie sofrimento. É importante atentar para o fato de que o sofrimento não se encontra nos órgãos dos sentidos e nem nos objetos externos, mas sim na nossa atitude diante dos estímulos. O sutra Potaliya (Majjhima Nikaya I) compara esse processo a um cão faminto que ganha um osso do açougueiro. O osso não tem nenhuma carne e por mais que o cão roa o tal osso, jamais vai aplacar sua fome. Leia o trecho:

“‘Suponha (…) que então um açougueiro habilidoso ou o seu aprendiz, descarnasse um osso e o deixasse lambuzado de sangue sem nada de carne e o arremessasse ao cão. O que você pensa, chefe de família? Aquele cão iria dar fim à sua fome e fraqueza roendo aquele osso lambuzado de sangue e sem carne?’’
‘Não, venerável senhor. Por que não? Porque aquilo é apenas um osso lambuzado de sangue e sem carne. No final das contas, aquele cão iria só colher cansaço e desapontamento.’
‘Da mesma forma, chefe de família, um nobre discípulo considera o seguinte: Os prazeres (…) proporcionam pouca gratificação, muito sofrimento, muito desespero e quanto perigo eles contêm.’ Tendo visto isso como na verdade é, com correta sabedoria, (…) na qual o apego a coisas materiais do mundo cessa completamente sem deixar vestígios.”

2. Desejo de Ser: eternalismo, arraigado no desejo de que exista uma alma imutável ou uma entidade fixa dentro do corpo. Uma existência perpétua, seja ela no mundo físico ou continuada em algum tipo de paraíso mágico.
 
3. Desejo de Não-Ser: niilismo, concepção de que se deveria “aproveitar a vida” acumulando para si toda sorte de prazeres, sem se importar com o que isso signifique ou acarrete para si ou para o entorno, já que de acordo com esse pensamento, não há nada que sobreviva à morte, nem coisa alguma que permaneça após a dissolução dos elementos que se manifestam na forma do indivíduo.
 
Então taṇhā é o desejo de que os fenômenos permaneçam inalterados para que nos ofereçam algum tipo de satisfação ou recompensa. Como isso é impossível, o desejo se torna a gênese de todo o sofrimento (dukkha, lembra?). Seja o sofrimento psicológico ou físico, todo ele se origina do desejo de permanência. Do desejo de satisfação sensitória pode surgir a tristeza (quando não satisfeitos) e o medo e angústia (de não conseguir satisfazê-los), Sendo assim, com a eliminação do desejo é impossível haver tristeza, medo ou angústia. E como tais sentimentos são frutos do desejo, se ele não for arrancado pela raiz, fará com que voltem a brotar.

“Tal qual uma árvore que, embora decepada,
tendo raízes intactas e fortes, cresce novamente,
Assim também, se as bases do anelo não são desenraizadas,
este sofrimento germina repentinamente.” (Dhammapada, v.338)

No sutra Sunakkhatta (Majjhima Nikaya II) a instabilidade da existência é expressa através de quatro reflexões:
 
• A vida no mundo é instável – rapidamente é varrida para longe;
• A vida no mundo é desprovida de abrigo ou protetor – estamos meramente sujeitos aos efeitos dos karmas;
• A vida no mundo não oferece nada que lhe seja de posse – todos em algum momento terão de abandonar a tudo;
• A vida no mundo é incompleta – o insaciado é eterno escravo do próprio desejo.
 
E sobre a escravidão do desejo gostaria de deixar um adendo. Hoje é comum considerar a cata de prazeres como uma “vantagem”, uma característica de “esperteza” e como sendo “liberdade”. Sobre a característica simplista e natural do Zen japonês, o Professor D. T. Suzuki esclarece afirmando que:

“Caso consideremos o Zen uma espécie de naturalismo, devemos admitir que ele repousa numa sólida disciplina. É nesse sentido e não como os libertinos tentam compreendê-lo, que pode ser concebido como naturalista. Os devassos não tem qualquer liberdade de espírito. Eles estão de mãos e pés atados por agentes externos ante os quais são completamente impotentes. O Zen, ao contrário, goza de uma liberdade perfeita, isto é, domina-se a si mesmo.” [1]

Caso não tenha ficado claro, uso outro exemplo. Considere um punhado de folhas secas sopradas pelo vento. Elas flutuam livremente pelo céu. É a imagem popularesca de liberdade. Sopradas daqui pra lá seguem soltas, sem amarras. Será? Não há nenhuma imagem de maior escravidão do que essa. As folhas, nessa ilustração, estão sempre debaixo da ordem do vento. As pessoas sob o jugo do desejo estão sempre debaixo da ordem de estímulos externos. Seguem arrastadas pelas correntes da ignorância e jamais têm o menor vislumbre de qualquer tipo de liberdade. E finalizando a comparação, o único livre no céu aberto seria o pássaro. Este através de seu próprio esforço desafia a poderosa força da gravidade e o vento. Fica muito simples de entender o que eu quero dizer: a verdadeira liberdade é a disciplina.
 
Assim, o desejo é o start de um processo infinito onde ele surge, busca-se a satisfação, se obtém algo semelhante à saciedade, tal saciedade inevitavelmente declina, surge um novo desejo, busca-se novamente a satisfação, é saciado, declina, surge outro desejo… e nunca terminará se não for extirpado na raiz. Pode ser expressa na busca pela satisfação relacionada com os órgãos dos sentidos, corporalidade, paladar, audição, visão e olfato e também pela busca de uma satisfação num nível existencial, acreditando numa existência eterna ou continuada ou na total aniquilação, os dois extremos que se afastam do Meio. A Segunda Nobre Verdade demonstra que a causa da Primeira Nobre Verdade é o desejo, a sede de satisfação.

“A dádiva do Dharma excede todas as dádivas;
O sabor do Dharma excede todos os sabores,
O prazer no Dharma excede todos os prazeres,
A extinção da sede sobrepuja todo sofrimento.” (Dhammapada, v.354)

. . .
(continua)
[1] Suzuki, D.T. Introdução ao Zen-Budismo. Editora Pensamento. São Paulo, 1993. p.110

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