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por Marcelo Prati
 
Leia as partes anteriores:
 
A Terceira Nobre Verdade: A Cessação do Sofrimento
 
A cessação do sofrimento é o Nirvana. É a destruição do aprisionamento das formas e sensações e também do desejo de que elas permaneçam. É a libertação do ciclo de nascimentos e mortes, da roda do samsara. O Nirvana não tem nenhuma relação com algum tipo de salvação no sentido vicário, ele é uma realização, um nível de compreensão que deve ser atingido pelos nobres através de seus próprios esforços, embora haja o conceito de jiriki e tariki[1]. Entendendo que não há alma para ser “salva”, que não se está sob o comando de nenhum ser poderoso que tenha uma existência objetiva (pois se existisse, ele estaria sujeito às mesmas causas, condições e efeitos que afetam tudo que é manifesto), que não há nenhuma força mágica invisível atuante em prol da humanidade, o Nirvana é a libertação das cadeias do desejo e o fim do apego aos fenômenos. Se tal divindade criadora existisse de fato e fosse capaz de destruir o sofrimento e instituir a ordem, ela simplesmente o faria e o universo não estaria mergulhado em desordem, confusão e insatisfatoriedade.
 
Etimologicamente, a palavra Nirvana vem de nibbayati, ligado com a ideia de soprar pra longe, certamente com o sentido de que se afastar as três raízes do mal: o desejo, o ódio e a ilusão. Também se pode levar em consideração a raiz va que inclina o significado um pouco mais para soprar “para fora”, contudo considera-se preferida a relação entre nir (negação) + vr (cobrir), com o sentido de descobrir ou desvelar. O Nirvana é fim da ilusão que caracteriza a futilidade, vaidade e superficialidade dos conceitos e da humanidade. É o fim da sede, mas não através de uma saciedade momentânea, mas pela eliminação de sua raiz. Assim, com o atingir dessa compreensão, o desejo é expulso, o processo de vir-a-ser é destruído e o aspecto último da realidade é revelado.
 
Por que é tão difícil explicar?
 
O Nirvana é uma experiência. Apesar de a gente cercar um objeto de estudo com definições lógicas, o Nirvana ultrapassa os conceitos. A lógica, suas premissas e fórmulas podem soar convincentes e corretas, mas ainda assim expressarem um engano. A famosa e tão citada passagem do sutra Kalama[2] afirma que não se deve crer em algo simplesmente por parecer lógico, racional, ter aparência de verdade, ser considerado correto por muitos ou por pessoas tidas como importantes. Obviamente esse trecho não diz para se ir contra a lógica, mas é um convite à investigação e a confirmação empírica.
 
Da mesma forma, afirmar que o Nirvana é ultrapassar a lógica através de uma experiência é entender que devido a não existência de essência de realidade nos fenômenos, os conceitos também são insubstanciais. É a experiência da substância, da essência real, de Atman e por isso é chamado de Realidade Última ou Verdadeira Felicidade. Conceitos, palavras, podem significar coisas diferentes de acordo com o contexto cultural, histórico, etc. As definições são criadas pelos seres humanos numa tentativa de passar adiante suas experiências e os significados das palavras não estão nelas mesmas. A palavra mesa não é a mesa. Se você encontrar uma definição de mesa em outra língua que não souber ler, não vai associar com a palavra que você conhece em português. A palavra apenas te remete à sua experiência do que é uma mesa. Experiência que você construiu através de uma relação de um estímulo externo recebido por seus órgãos dos sentidos e que foi interpretado pelo seu cérebro. A própria mesa não é dotada de realidade própria. Ela é o resultado de uma cadeia de acontecimentos e relações. A palavra cadeira, em português, representa um objeto, mas veja, também é associada com os quadris. Assim, sendo as definições impermanentes, surgidas e insubstanciais, elas são incapazes de descrever a experiência de algo que seja substância. Contudo vamos descrever o Nirvana de duas maneiras.
 
Negativamente, ou o que ele não é:
nir (negação) + vr (cobrir) = desvelar os olhos, acordar.
nir (negação) + rodha (prisão) = libertação do ciclo de nascimentos e mortes.
Assim, o Nirvana é a experiência daquilo que é não-formado, não-surgido, não-nascido, não-condicionado, livre de amarras. É a experiência além dos fenômenos que são condicionados, surgidos e formados. A linguagem comum não o atinge, pois ela se baseia apenas em fenômenos transitórios.
 
Positivamente, ou o que ele é:
• A verdadeira felicidade.

“A fome é a maior das enfermidades,
As formações mentais a maior das dores;
Para aquele que isto tenha compreendido conforme a realidade,
O Nirvana é a mais elevada felicidade.

A saúde é o melhor dos ganhos,
O contentamento é a maior riqueza,
A confiança é o melhor dos parentes,
O Nirvana é a mais elevada felicidade.” (Dhammapada v.204-205)

“Assim ouvi. Em certa ocasião Sariputra estava em Rajagaha. Lá ele disse para os monges, ‘Este fim do desejo é prazeroso, amigos. Este fim do desejo é prazeroso, amigos.’
Quando isso foi dito, Udayin disse para o Shariputra, ‘Mas que prazer pode haver aqui, meu amigo, onde nada é sentido?’
‘Exatamente esse é o prazer aqui, meu amigo: onde nada é sentido. (…) Um bhikkhu, com a completa superação da base da nem percepção, nem não percepção, entra e permanece na cessação da percepção e sensação. E vendo isso com sabedoria, as suas impurezas mentais são completamente destruídas. Portanto, através desse raciocínio pode ser compreendido que Nirvana é prazeroso.’” (Anguttara Nikaya IX.34)

“Outra vez, amigo, com a completa superação da base da nem percepção, nem não percepção, um bhikkhu entra e permanece na cessação da percepção e sensação, e tendo visto com sabedoria, as suas impurezas são destruídas.” (Anguttara Nikaya IX.42)

“Quando esta consciência não se estabelece, não cresce, não gera, ela se liberta. Estando libertada, ela fica estável; estando estável, ela fica satisfeita; estando satisfeita, ela não se agita. Sem agitação, ele compreende o Nirvana. Ele entende que ‘O nascimento foi destruído, a vida santa foi vivida, o que deveria ser feito foi feito, não há mais vir a ser a nenhum estado.” (Samyutta Nikaya XXII.53)

Sendo o estabelecimento da mente no que é substância, é a Verdadeira Felicidade, sendo não-surgido, não cessa, sendo não-condicionado, não está sujeito a mudanças, o Nirvana é então o abandono de tudo aquilo que é transitório e ilusório, ocorrendo em duas formas: o Nirvana residual (em vida) e o Nirvana não-residual, a total extinção, ou Grande Nirvana, quando liberto de todas as amarras, pacificamente, o fenômeno indivíduo se dissolve no fluxo do Todo.
 
Acho que agora dá pra ler uma passagem como essa abaixo e entender diretamente, sem enrolação, né? Leia:

“Existe, monges, o não-nascido, o não-surgido, o não-formado, o não-condicionado. Se não existisse o não-nascido, o não-surgido, o não-formado, o não-condicionado, não haveria a situação na qual a emancipação do que é nascido, surgido, formado, condicionado seria encontrada. Porém precisamente porque há o não-nascido, o não-surgido, o não-formado, o não-condicionado, a emancipação do que é nascido, surgido, formado, condicionado é encontrada.” (Udana VIII.3)

E essa:

“Onde as estrelas não brilham, o sol não resplandece, a lua não brilha, a escuridão não é vista. E quando um sábio, um brâmane através da sabedoria, compreendeu isso de modo direto, então do material e do imaterial, do prazer e da dor [3], ele está libertado.” (Udana I.10)

Assim, o fim do sofrimento, a destruição das três raízes do mal, a experiência da Verdadeira Felicidade é o Nirvana. Essa é a Terceira Nobre Verdade.
 
. . .
(continua)
 
[1] Jiriki, Tariki (jp). Respectivamente, Próprio-Poder, Outro-Poder.
[2] “(…) ‘Não se deixem levar pelos relatos, pelas tradições, pelos rumores, por aquilo que está nas escrituras, pela razão, pela inferência, pela analogia, pela competência (ou confiabilidade) de alguém, por respeito por alguém (…). Quando vocês souberem por vocês mesmos que, essas qualidades são hábeis; essas qualidades são isentas de culpa; essas qualidades são elogiadas pelos sábios; essas qualidades quando postas em prática conduzem ao bem e à felicidade de todos – então vocês devem entrar e permanecer nelas.” (Anguttara Nikaya III.65)
[3] Desprendimento de tudo que é fenomênico. A experiência do Nirvana. Há versos no mesmo sentido no Dhammapada:
“Aquele cujo coração está livre de luxúria, aquele que não tem perplexa sua mente,
Aquele que suprimiu o bem e o mal – não há temor para este vigilante.” (v.39)
“Aquele que aqui escapou de ambos, o bem e o mal,
Que é livre de tristeza e aviltamento, que é puro – a este, “brâmane” eu chamo.” (v.412)

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