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Leia as partes anteriores:
 
A Quarta Nobre Verdade: O Caminho para a Cessação do Sofrimento
 
por Marcelo Prati
 
O Caminho para a Cessação do Sofrimento é o Caminho do Meio, que também é chamado de Nobre Caminho Óctuplo. Esse caminho é um guia para a vida e como é descrito na sua Nobre Verdade correspondente, ele é a senda para o Nirvana. É através dele, uma disciplina aplicada, que se atinge tal compreensão. Mas qual a razão de alguém seguir esse caminho? Por que alguém iria querer se tornar budista, se esforçar nesse sentido? O que alguém está buscando com isso?

“Há um Caminho do Meio para o abandono da cobiça e da raiva, que proporciona visão, proporciona conhecimento, que conduz à paz, ao conhecimento direto, à iluminação, ao Nirvana. E qual é esse Caminho do Meio? É exatamente este Nobre Caminho Óctuplo.” (Majjhima Nikaya 3)

Se for isso que você procura, submeta-se e esforce-se. Se não for isso, vá fazer outra coisa.
 
O Nobre Caminho Óctuplo consiste em:
 
1. Visão Correta
2. Pensamento Correto
3. Fala Correta
4. Ação Correta
5. Meio de Vida Correto
6. Esforço Correto
7. Atenção Correta
8. Concentração Correta
 
Os oito aspectos do Nobre Caminho Óctuplo estão dentro dos três agregados da moralidade (sila), concentração (samādhi) e sabedoria (prajña). Ele é uma manifestação da perfeição dessas três características e pode ser agrupado como segue:
 
1. Moralidade:
Inclui a Fala Correta, Ação Correta e Meio de Vida Correto.
2. Concentração:
Inclui o Esforço Correto, Atenção Correta e Concentração Correta.
3. Sabedoria:
Inclui a Compreensão Correta e o Pensamento Correto.
 
Ou seja, essas três disciplinas contém o Nobre Caminho Óctuplo. Isso quer dizer que o Caminho existe por causa delas e não o contrário.
 
O que significa isso tudo e como seguir esse caminho?
 
Vamos analisar cada parte e lembrando que essa Via não descreve degraus, mas sim um grupo de atitudes que são tomadas em conjunto. São oito aspectos contidos em três características inseparáveis. Começando então:
 
1. Visão Correta:
Basicamente é a compreensão das Quatro Nobres Verdades, a existência do sofrimento, sua causa, seu fim e o método de se alcançar tal objetivo. Pode acontecer de duas formas, externa ou interna:
 
• Externa: ouvindo o ensino através de outros;
• Interna: através de uma profunda reflexão.
 
Quando uma pessoa tem contato com o Dharma e recebe alguma instrução, imediatamente tal pessoa é convidada à reflexão cuidadosa e é esse processo que leva à Visão Correta. É através disso que se compreende a natureza dos fenômenos, que alguém percebe que os Cinco Agregados da existência são impermanentes, então convencido de que a moralidade onde essas ações habitam produz bons resultados, mantém-se tal postura, adentrando ao Arya Marga, o Nobre Caminho, composto por sua vez de quatro degraus (esse sim são degraus). Esses degraus são:
 
Vencedor da Corrente (corrente no sentido de fluxo): não possui mais a ideia de um eu permanente, percebeu que os ritos, regras e rituais são insubstanciais e não se apega mais à dúvida meramente especulativa.
Aquele que renasce apenas mais uma vez: é aquele que renasce no mundo humano e não retorna mais aos mundos inferiores. Se ele fraquejar, sua oscilação é mínima e rapidamente ele retorna ao mundo humano. Esse “apenas uma vez” é simbólico, quer dizer que ele não está mais apegado à convulsão dos mundos inferiores. Sua consciência permanece somente em estados elevados e ele não se ilude mais, nem sofre com os três tipos de desejo e nem ódio. Mas vale dar uma lida sobre o que significa renascer no mundo humano no post sobre os dez mundos.
Aquele que não mais retorna: Após atingir o mundo humano ele deixa de oscilar definitivamente, sem abandonar esse estado até que atinja o nível superior.
Estado de Arhat: o Arhat é um iluminado. A diferença entre um Buda e um Arhat, de acordo com o Budismo Mahayana, é que um Buda adentrou à Grande Extinção, o Parinirvana.
 
2. Pensamento Correto:
Consiste em assumir um pensamento livre de desejo de satisfação dos prazeres dos sentidos, ódio e o desenvolvimento de pensamentos de compaixão pelos seres sencientes, sem malícia (ahimsa) ou maldade.
 
3. Fala Correta:
Significa abster-se de enganar, de usar a fala para criar desunião e sempre usar a fala com algum propósito superior.
 
4. Ação Correta:
Abster-se dos três tipos de má conduta com o corpo, que são: matar ou criar causas de morte, tomar o que não foi dado ou roubar e má conduta sexual. Agir corretamente produz resultados benéficos para a mente que busca um nível superior de compreensão. Devido à relação corpo-mente ser indivisível, tal disciplina auxilia a libertação mental do apego à satisfação. Ainda esclarecendo sobre a má conduta sexual, para o Budismo isso quer dizer que se deve abster de ter relações sexuais com mulheres sob proteção dos pais (ou seja, crianças), mulheres casadas, mulheres comprometidas e prostitutas.

“Um discípulo de Buda deve ter uma mente filial, salvando os seres e instruindo-os no Dharma da pureza e castidade. Se, em vez disso, é desprovido de compaixão e encoraja outros a envolverem-se em condutas sexuais impróprias, ou envolve-se promiscuamente com alguém, incluindo animais ou mesmo a sua mãe, filha, irmã ou outros parentes próximos, comete uma ofensa Parajika[1].” (Sutra Brahmajala)

A Ação Correta é fundamental para a vida em sociedade.
 
5. Meio de Vida Correto:
Consiste em rejeitar meios de vida que consistam em tirar vantagem, enganar, prejudicar a vida ou a acuidade mental.
 
6. Esforço Correto:
Compreende os Quatro Grandes Esforços e colocá-los conscientemente em funcionamento. Eles são a evitar o surgimento de pensamentos desfavoráveis que ainda não surgiram, abandonar aqueles que já surgiram, desenvolver pensamentos favoráveis que ainda não surgiram, manter aqueles que já surgiram.
 
7. Atenção Correta:
Aprender a contemplar o corpo, as sensações e os objetos mentais com atenção, vendo no que eles consistem realmente, abandonando a cobiça e a tristeza.
 
8. Concentração Correta:
É a prática de atingir as absorções meditativas. Através da meditação a pessoa pode ultrapassar os Cinco Impedimentos que são o desejo pela satisfação dos sentidos, a má vontade, preguiça, preocupação e a dúvida meramente especulativa. O desejo de satisfação é destruído pela mente concentrada, a má vontade pela alegria (piti, no sentido de entusiasmo), a preguiça pela dedicação inicial, a preocupação pela felicidade (sukkha, contrário de dukkha) e a dúvida especulativa pela dedicação continuada. O Anguttara Nikaya V compara os Cinco Impedimentos a cinco tipos de águas contaminadas ou sujas onde a gente não conseguiria ver nosso reflexo. Da mesma forma, confundidos por tais impedimentos, não podemos ver quem somos realmente.
 
O Caminho pode às vezes ser mal compreendido, como uma via de mera abstinência negativista, mas um pouco de atenção e razoável inteligência permite notar que, por exemplo, o aspecto mais marcante da Moralidade no Caminho Óctuplo é completamente voltado para a vida em sociedade. Através da prática da moralidade, a ética budista, consegue se alcançar uma convivência equilibrada, além das outras duas disciplinas, a Concentração e a Sabedoria também serem aplicáveis no contexto social. Observe com cuidado e perceba como que cada tópico não se concentra na abstinência em si, mas se estende para a excelência pessoal e o bem estar da convivência em grupo. Dessa forma, o praticante se torna um criador de boas causas para si próprio e para os outros no presente e no futuro.
 
Concluindo a série, através de uma vida equilibrada e ética, dedicada e disciplinada, aliada ao cultivo de uma mente meditativa e superior, o sofrimento é eliminado através da destruição de sua raiz, o desejo, e se atinge a experiência da Verdade Última, o Nirvana. Esse é o Caminho para a Cessação do Sofrimento, o Nobre Caminho Óctuplo, o Caminho do Meio, a Quarta Nobre Verdade.
 
. . .
 
[1] Parajika era a ofensa mais grave na comunidade budista. Era o tipo de ofensa punida com a expulsão do membro.

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As Quatro Nobres Verdades – Parte 4 (final)
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5 ideias sobre “As Quatro Nobres Verdades – Parte 4 (final)

  • 29 de outubro de 2014 às 20:27
    Permalink

    Teu mestre, Dharmananda "Mahacarya" não só comete a 1ª ofensa Parajika, como ainda incentiva os outros a fazê-lo. Pois, se alguém que se diz monge budista, não viver em voto de celibato (abrangido dentro do voto de bramacharya) e realizar qualquer tipo de ato sexual, este cometeu a 1ª ofensa Parajika, segundo todos os Vinayas : Theravada, Dharmaguptaka e Sarvastivada. Teu "mestre" é um mestre do erro, e inimigo do Dharma Budista. Quem disse que um monge deve renunciar ao sexo, ao apego as prazeres dos sentidos, a buscar coisas impermanentes tais como mulheres e filhos, foi o próprio Buda Siddharta Gautama. Nos sutras e no Vinaya Buda deu uma reprimenda (esporro) e expulsou da sangha todos os monges que propuseram que não havia nenhum problema em os monges budistas se envolverem em sexo ou em apego aos prazeres do sentidos. Buda ensinou nos sutras que pensar em sexo ou se envolver com sexo sem se apegar a ele é algo impossível.

  • 29 de outubro de 2014 às 20:43
    Permalink

    Pesquise sobre o caso do bikkhu arita. Leia o Majima Nikaya 26 – A Nobre Busca e o Methuna Sutra. É muito estranho ver alguém que se diz "tradicional" como o Dharmananda "Mahacarya" defender um modernismo japonês (o casamento dos monges budistas) que foi imposto pelo governo meiji, que era xintoista e perseguiu ao Budismo, chamado-o de doutrina extrangeira e parasitária.

    Anguttara Nikaya VII.50 – Methuna Sutta: http://www.acessoaoinsight.net/sutta/ANVII.50.php

    Majjhima Nikaya 26 – Ariyapariyesana Sutta: http://www.acessoaoinsight.net/sutta/MN26.php

    Não se trata aqui de opinião pessoal, mas do que foi ensinado pelo próprio Buda vs. o que foi modificado no Japão pelo governo meiji inimigo do Dharma 2.400 anos depois!

  • 29 de outubro de 2014 às 20:52
    Permalink

    O Dharmananda M. diz que tudo bem se os monges buscarem gratificação sexual, mulheres e filhos. Mas o Buda Gautama diz o contrário, nos convida ao oposto, e sinceramente, eu como budista, prefiro o ensinamento do Buda ao de qualquer pessoa que apareceu 2.500 anos depois do Sakyamuni, pegou o ônubus andando e quer sentar na janelinha.

    Não se trata de fanatismo, mas de se ater aos fundamentos da nossa Doutrina. bem como, de compreender porque o Buda disse que se ouvesse outro apego ou grilhão tão forte como o sexo ele talvez não teria conseguido atingir a iluminação.

    Se trata de compreender que o apego e o desejo por uma sensação que dura apenas alguns segundos, é o suficiente para perder o Nirvana e se renascer novamente em sua mente passional.

  • 31 de outubro de 2014 às 17:09
    Permalink

    Todos os Vinayas concordam sobre as 4 parajika. São as mesmas regras em todos os Vinayas, demonstrando assim, de forma lógica e inequívoca que as 4 parajikas foram estabelecidas pelo próprio Buda Gautama, já que, aqueles ensinamentos que são concomitantes em todas as escolas budistas, como as 4 nobres verdades ou o nobre caminho óctuplo, vieram de uma raiz primitiva ou inicial em comum, que é o próprio Buda.

    Todos os ensinamentos budistas que divergem em um mesmo assunto ou que não concordam entre si, surgiram obviamente, depois do falecimento do Buda Sakyamuni.

    • 7 de dezembro de 2014 às 10:56
      Permalink

      Tudo que você expôs, ANÔNIMO, está mergulhado numa mentalidade hinayanista. Há uma porção de regras estúpidas nos vinayas e eles afirmam muita coisa que não faz O MENOR sentido no mundo de hoje, coisas que, quando praticadas, não apenas seriam um esforço inútil rumo a nada, como também acabariam se tornando o oposto do Caminho. Acho que quando você, ANÔNIMO, insiste sobre as regras da plataforma de ordenação, sobre as faltas graves, já deve ter lido ou compreender que a letra é insubstancial e que as regras tem um OBJETIVO e não são apenas "mandamentos". Já deve saber também quem foram Zhiyi e Saicho. Se sabe, entende que ninguém "inventou" nada 2500 anos depois. Assim, se não há nenhum comentário SOBRE A POSTAGEM, e você se deu o trabalho apenas de vir aqui e fazer esse papelão ridículo de ofender pessoalmente a alguém, já deve ter encerrado depois desses parágrafos.

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