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Por Marcelo Prati
 
Ontem tive uma conversa muito agradável com um leitor do blog que enviou perguntas pelo facebook. Ele tinha algumas dúvidas sobre como encarar algumas histórias presentes nos sutras, assim, dentro das minhas possibilidades tentei oferecer alguma luz. Basicamente o papo girou em torno do trecho do Sutra Lalitavistava, sobre o nascimento do Buda, que postamos aqui no blog faz uns dias. Achei que seria bacana publicar aqui, pois poderia ser a dúvida de outras pessoas.
 
Todo o simbolismo presente nos textos às vezes é um pouco nebuloso, por isso o estudo é bem importante. Os textos foram escritos dentro do contexto de outro lugar, outra época. Mas existem alguns conceitos chave para a leitura, então vamos devagar. Vou citar aqui trechos do sutra que foram o alvo da dúvida e depois comentar.

“Quando seus pés tocaram o chão um grande lótus imediatamente desabrochou da terra. (…) Onde quer que desse um passo, um lótus desabrochava sob seus pés.”

O lótus é um símbolo da pureza, da não-contaminação. Quase todo mundo que se interessa por Budismo conhece esse símbolo. É uma flor que brota na água, mas sem tocá-la, fica sempre acima. O Nobre age da mesma forma. O Buda está no mundo, caminha livremente por ele, mas não se contamina.

“Ele então deu sete passos na direção leste … sul … oeste … norte … acima … abaixo (…)”

Primeiro note as direções, formam um quadrado, além de para cima e para baixo. Ou seja, todas as direções, a totalidade do universo. Isso quer dizer que sua mensagem abrange a tudo e a todos, que ele faz suas declarações a todos os seres de todos os lugares em todas as direções. Não há ninguém de fora da abrangência da Doutrina. Há também, em muitos sutras, a presença do número sete, além de outros como o três, quatro, dez e por aí vai. Na literatura antiga, não apenas nos textos budistas, o número sete é um símbolo de completude, de perfeição[1]. No caso específico do Budismo, uma pesquisa rápida me trouxe várias referências ao número sete. Destaco algumas interessantes, por exemplo:
 
As sete características da aquisição da Mente Búdica[2]:
1. Capacidade de diferenciar o verdadeiro e o falso;
2. Mente resoluta, decidida;
3. Alegria, deleite;
4. Alívio de tudo que é bruto, grosseiro ou fardo ao corpo e mente, me modo que fiquem leves, livres e apaziguados;
5. Capacidade de lembrar-se de seus estados passados através da contemplação;
6. Capacidade de manter a mente em um único reino/mundo sem oscilação;
7. Abandono completo, indiferença diante a todas as perturbações do subconsciente ou, a mente absorta.
 
Os sete poderes de retórica ou métodos dos Bodhisattvas[2]:
1. Ele é direto e desimpedido;
2. Seu argumento é acurado e profundo;
3. Seu ponto de vista é ilimitado;
4. Seu argumento é irrefutável;
5. Sua fala é apropriada e adequada para a receptividade (do ouvinte);
6. Seu discurso sempre tem um propósito e objetivo;
7. Ele é capaz de prover o supremo e universal método de superação do sofrimento (ou seja, o Budismo Mahayana).

 

Ou as sete pedras preciosas da Terra da Suprema Bem-aventurança, descrita no Sutra de Amitabha[3]:

Ouro, prata, lapis lazuli, cristal, ágata, pérola vermelha e coralina, que de acordo com a exegese significam a confiança, perseverança, arrependimento, renúncia, atenção, concentração e sabedoria. É toda a riqueza e opulência da mente que renasce nessa Terra Pura.
 
Mas numa referência direta, encontrei os passos do Buda infante relacionados com a vitória total sobre o sofrimento, como consta no primeiro sermão, o nascimento, velhice, doença, morte, aproximação do que não se é querido, afastamento do que se é querido e a impossibilidade de se satisfazer os desejos. Sempre nesse sentido de totalidade, de sete partes que compõem um todo. Assim, a cena descreve uma marcha heroica, uma decisão firme de vitória total proclamada a todas as direções do universo.
 
Nosso caro leitor também questionou o seguimento do relato, quando numerosos milagres ocorrem, as doenças do mundo são curadas, os cegos enxergam, os surdos ouvem e a alegria toma conta do mundo.

“No exato momento em que o iluminado nasceu (…) todos os tipos de apego, ódio, ilusão, orgulho, desgosto, tristeza e depressão, medo, ganância, ciúmes e mesquinhez acabaram e todos abandonaram toda forma de conduta imprópria. Os doentes foram curados (…). O louco teve sua sanidade restaurada. O cego pode ver. O surdo pode ouvir. (…) O prisioneiro tornou-se livre. Todas as dores (…) dos que habitavam os mundos infernais (…) cessaram (…). O sofrimento daqueles nascidos no mundo animal (…) também foi apaziguado (…).”

 É verdade que muitos sutras falam da cura de doenças, mas veja bem:

“O desejo é a maior das enfermidades,
As formações mentais, a maior das dores;
Para aquele que tenha compreendido isso conforme a realidade,
O Nirvana é a mais alta felicidade.” (Dhammapada c.XV v.206)

“Eu sou como um bom médico que conhece a doença e prescreve os remédios. Se for tomado ou não, não é responsabilidade do médico.” (Sutra do Ensinamento Legado Pelo Buda)

Ou seja, a única doença a ser curada é a “doença da mente.” E vamos fazer outra reflexão. Quando o Buda aparece em textos tão poéticos e simbólicos, nem sempre ele representa necessariamente um personagem histórico. O Buda é a sua verdadeira natureza e não uma pessoa. Sendo assim, o “nascimento do Buda” não poderia também ser entendido como o despertar dessa natureza? Perceba como o texto se abre quando você entende isso. Quando “o Buda infante nasce” decidido e forte como um leão, movimenta-se resoluto e desimpedido, vencendo o sofrimento, consequentemente curando toda cegueira, surdez, demência, medo, desespero, etc. Os seres tornam-se livres das cadeias que os aprisionavam. Símbolos da arrogância, ignorância, ansiedade, etc.
 
Eu ainda brinquei com ele dizendo que a gente também pode deixar isso tudo pra lá e dizer que um bebê, no momento do nascimento, ficou de pé, andou e antes de pisar no chão, flores de lótus magicamente brotavam sob seus pés, depois os deuses e os dragões jogaram pétalas de flores e um chuveiro mágico perfumado do céu. O recém-nascido deu uma volta, falou umas frases e um raio de luz apareceu, curou todas as doenças do mundo e ninguém nunca mais ficou triste neste planeta. E se esse texto é simbólico, qual a razão dos outros sutras não serem também? Muitos sutras contém a explicação inserida no próprio texto! Por isso leiam os sutras!
 
Contudo vale a pena lembrar de uma coisa: a dúvida meramente especulativa é um impedimento à iluminação e não adianta ficar “discutindo o sexo dos anjos” nos textos religiosos, do tipo, “ah, o que significa esse número, qual a razão dessa vírgula…” e não por em prática o essencial. Apesar de ser um sistema de investigação e análise, o Budismo precisa ser algo prático, algo que gere resultados e não conversa fiada, papo prolixo, um cachorro correndo atrás do rabo.
 
Espero que o texto de hoje lance alguma luz às mentes e sopre pra longe a névoa da frente dos olhos dos leitores que ainda porventura possuam dúvidas.
[1] Morel, C. Dizionario dei Simboli dei Miti e delle Credenze. Giunti. Firenze. 2006.
[2] Hodous, L. Soothill, W. E. Dictionary of Chinese Buddhist Terms. Dharma Drum Buddhist Colege. Taipei. 2010.
[3] Cleary, J. C. Pure Land Pure Mind. Sutra Translation Comitee of the United States and Canada. 1994.

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