Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Share on LinkedIn
por Marcelo Prati
 
Um tempo atrás, após fazer críticas leves e absolutamente plausíveis sobre heresias e bizarrices dentro do Budismo, um amigo me perguntou o que eu tinha contra os “happy buddhists”, ele fazia uma referência ao tipo de seguidor (ou de guia) que está lá “pra sentir a vibe“, aquele que adora frases de efeito (mesmo que não tenham significado nenhum). De fato, achei a expressão que ele usou muito curiosa. Primeiro porque ela associa a felicidade com uma sensação ilusória, o que de cara já vai de encontro com a primeira das Quatro Nobres Verdades, isso pra não falar dos Selos do Dharma. Além disso, ficou aquela impressão de que eu estaria “exagerando” ou “contra” o direito universal de cada um fazer o que acha correto da vida. Direito universal que se estende até mim para me posicionar pessoalmente contra o que não acho válido e correto e obviamente explicar a razão.
 
Hoje tive o desprazer de assistir alguns videos que me fizeram lembrar desse ocorrido. Os costumes da tradição praticada no Obakusan Manpukuji, uma escola que poderia ser considerada uma ponte com as tradições chinesas anteriores, contaminada de heresias, algo doentio, nojento, repulsivo, grotesco, completamente fora do que deveria ser considerado Budismo, já que não há nada, leia bem, nada em nenhuma escritura Budista que nem ao menos de maneira distorcida considere válido ou aceitável isso que você verá nos vídeos. Estou exagerando? Estaria sendo “fundamentalista”? Curioso é notar que essa palavra é definida no dicionário Aurélio da língua portuguesa como “Tendência de alguns adeptos de uma religião de retornar ao que consideram como fundamental ou original.” Será que todo mundo procurou uma fonte de consulta antes de repeti-la aos quatro cantos associando-a com a ideia de fanatismo? Voltaire em seu Dicionário Filosófico escreve sobre o fanatismo:

“Não há outro remédio contra essa doença epidêmica senão o espírito filosófico que, progressivamente difundido, adoça enfim a índole dos homens, prevenindo os acessos do mal porque, desde que o mal fez alguns progressos, é preciso fugir e esperar que o ar seja purificado. As leis e a religião não bastam contra a peste das almas; a religião, longe de ser para elas um alimento salutar, transforma-se em veneno nos cérebros infeccionados.”

E ainda diz que “o efeito da filosofia é tornar a alma tranquila e o fanatismo é incompatível com a tranquilidade. Se a (…) religião tem sido freqüentemente corrompida por esse furor infernal, é à loucura humana que se deve culpar.” Ou seja, questionar, argumentar e considerar pontos divergentes não é fanatismo. E fundamentalismo não é fanatismo. Fanatismo é sustentar uma afirmação, mesmo que seja uma mentira distorcida, e adoentar as mentes das pessoas chamando aquilo de verdade. Fundamentalismo é trazer à tona o que é importante, fundamental e foi perdido.
 
Prosseguindo, as imagens que veremos nos vídeos são uma prática claramente de influência taoista, misturado com todo tipo de crendice espúria e desprezível e observar algo assim me atinge com uma mistura de tristeza e estarrecimento. Você critica o pastor que promete bênçãos e milagres em troca de dinheiro? Você despreza o êxtase coletivo e a gritaria esquizofrênica do neopentecostalismo? Então eu não deveria corroborar com a visão do Budismo ter se tornado repetição ritualística, desse templo transformado num prostíbulo de almas, a porta do inferno enfeitada e demônios fantasiados de monges convidando para entrar e congregar em seu culto diabólico.
 
 
Através da total destruição da base doutrinária fundamental, algumas escolas ditas budistas atingiram o fundo do poço. Tudo virou um museu abandonado, um teatrinho de fantoches controlados pelas mãos do próprio Māra. Isso me faz pensar que sou brando demais. Enquanto se bate palmas para as “maravilhosas tradições legítimas” o Budismo morre às mínguas e se debate em agonia, pisado e chutado por quem se diz Budista. Cuspido pelos que se dizem seus cuidadores. Além de muitos outros que cegos pela aparência externa não percebem que se trata de um diabo sob um disfarce. A pompa, a aparência de tradição, não as deixa notar os chifres que sobressaem. Se bem que certos indivíduos até notam. “Ah, mas deve ser algum exótico costume oriental. Eles devem ter uma boa razão pra usar os chifres, quem sou eu pra dizer. Com certeza é um adereço auspicioso.” Assim passam também os fiéis a usar tais enfeites e ainda dizer que são os cornos da boa sorte. E o diabo a rir-se atrás da máscara. Vejamos os vídeos:
 
1. Eis a oferenda feita para Avalokitesvara, pra quem não conhece, esse bodhisattva que representa a compaixão por todos seres vivos. Uma das afirmações mais básicas do Budismo Mahayana é a de que todos os seres vivos compartilham do estado de Buda latente e assim são essencialmente idênticos. Veja as ofertas para a compaixão em 5:21 http://youtu.be/_R4p_ghOikU?t=5m21s
 
2. Também da seita Obaku, no templo (nem sei se chamo isso de templo) Sofukuji em Nagasaki, o lamentável “Festival dos Fantasmas” e suas oferendas também de cadáveres, além das “casinhas” para os “fantasmas” morarem. http://youtu.be/wfjbER45E74
 
3. Mais merda no mesmo templo… veja em 9:35 http://youtu.be/n1eyzoamfCU?t=9m35s
 
Sim, você viu corretamente. Existem pedaços de cadáveres enfeitados ofertados a Avalokitesvara. Não é possível uma profanação maior. Deveriam tocar fogo nos sutras e queimar as estátuas dos Buda e Bodhisattvas. Seria menos desrespeitoso. Repito, não existe profanação maior do que oferecer a Avalokitesvara o alimento dos demônios. Isso é doente. Enquanto isso, leia o que diz o Sutra da Total Aniquilação do Dharma (T0396_.12.1118c09):

“Demônios se tornarão monges para deteriorar meu caminho e torná-lo confuso. (…) Eles beberão álcool e comerão carne, tirando vidas pela ganância de seu sabor. Neles não haverá verdadeira compaixão e serão odiosos e invejosos uns com os outros.
(…)
Eles vão omitir partes dos sutras, desconsiderando aqui e ali, não querendo ensinar o texto inteiro, nem terão o hábito de recitar os sutras. Ainda assim, mesmo que alguém os leia, nem sequer uma palavra ou frase será entendida. Haverá aqueles de palavras fortes e consistentes, mas os monges servos do demônio não consultarão os mais esclarecidos por serem orgulhosos e só buscarem fama ao invés do Dharma. Não serão objetivos em suas falas, mas terão trejeitos suaves e elegantes, pois querem ser homenageados e receber oferendas.
(…)
Naquele tempo, embora existam bodhisattvas, praticantes solitários e arhats, os monges servos do demônio vão expulsá-los e persegui-los não permitindo que participem das assembleias. Por isso os três tipos de praticantes adentrarão às montanhas  cultivando práticas benéficas em prol da humanidade. Autocontrolados, eles serão felizes e contentes e (…) eles reerguerão o Budismo.”

Será que eu estou incomodado com os “happy buddhists”? Ou talvez minhas palavras sejam escritas justamente porque me importo com eles… Leia o que diz o capítulo VI do Dhammapada. Há algo de felicidade (ou de budista) nessas cenas grotescas? Será que eu estou reagindo com excessos? Em outro tempo, esse templo seria invadido debaixo de porretadas. Vale lembrar que os Sohei, os monges soldados, destruíram em um único dia sete templos da seita de Nichiren apenas pela acusação de que tais templos pregavam uma interpretação errônea do Sutra do Lótus. Minha reação é exagerada? Os pobres animais sob a imagem de Guanyin e enquanto isso no altar principal a frase em chinês: “Grande e Ampla Compaixão de Buda”… parece um tipo de piada, uma piada demoníaca. Algo preternatural. Algo que causa náuseas, nojo e um certo terror até. A visão do templo torna-se sombria, sórdida, algo velho e escuro, abandonado, vazio, cheio de fantasmas e não de pessoas. É a precisa imagem que, de alguma forma, se manifesta profetizada no Sutra da Total Aniquilação do Dharma. [Leia o texto completo].
 
O que o Grande Mestre T’ien-t’ai diria disso? T’ien-t’ai Chih-i, no século VI, conseguiu que todo tipo de caça e pesca fosse proibido na área da montanha T’ien-t’ai por um decreto imperial que durou dois séculos. É, talvez o vegetarianismo seja algo relevante dentro do Budismo, não? Você não acha que algo repetido por tantas vezes em todos os sutras e comentários tem alguma razão de estar lá? Hoje o mesmo tipo de oferenda de cadáveres é feita aos deuses taoistas na área da montanha, nas circunvizinhanças onde Chih-i esteve e ensinou. Isso pra não falar dos vagabundos que se embriagam dentro dos templos e se dizem possessos por “Jigong”, fantasiando-se de monges. Essa é a imagem atual da ” maravilhosa tradição”.
 
O que Saichō diria disso? Saichō disse no século IX:

“Meus companheiros deste Monte [Hiei], seguindo os preceitos, vocês não devem beber sake. Se vocês violarem essa regra, vocês não serão nem meus companheiros, muito menos meus discípulos. Recitem o Sutra do Lótus todos os dias, estudem os corretos ensinamentos, se esforcem na meditação fazendo com que o Dharma dure para sempre.”

Tantos se dizem seguidores de Nichiren e do Sutra do Lótus… Nichiren se afirmava em suas cartas como mero discípulo de Saichō. E em uma delas escreve:

“Nada em todos os sistemas de mundos se compara ao valor de um ser vivo, isso significa que nem mesmo todas as joias e tesouros que preenchem o universo podem se igualar ao valor de uma vida. Aquele que mata uma mera formiga cairá no inferno, o que dizer então daquele que mata peixes e pássaros?” (Nichiren, Carta para Akimoto. 1280)

O templo dos vídeos é o templo onde Tetsugen ensinava no século XVII. O mesmo Tetsugen Dōkō que disse:

“Todos aqueles que praticam sem manter os preceitos ensinados pelo Buda representam o Falso Dharma. A razão para isso é a seguinte: Enquanto práticas como recitar a lembrança do Buda Amida, sentar-se em meditação e recitar os sutras são praticadas de forma diferente dependendo da habilidade do praticante, os preceitos contra tirar a vida, roubar, má conduta sexual, mentira etc. são absolutos, independentemente da Escola. Não mantê-los é inaceitável.”

Estou sendo exagerado? Nem um pouco. Pego leve demais. Explico demais e com gentileza demais.
 
Estou sendo fundamentalista? Da forma correta, sim. Maravilha. Tento argumentar com clareza e busco o que é fundamental e verdadeiro, trazendo para este tempo e lugar em que vivemos. Identificando o que é superstição local, folclore e procurando o significado, a essência pra compreender o melhor método de atingi-la. Lembrando: tradição não é repetir uma idiotice por cem anos.
 
Estou sendo fanático? Não. Vivemos num tempo em que todas as coisas se tornaram uma massa nojenta e sem forma e alguém te chama de fanático apenas por fazer algo simplesmente da maneira que deveria ser feito.
 
Tenho alguma coisa contra os “happy buddhists”? Não. Muito pelo contrário. Apenas falo para que percebam que não são nem happy e menos ainda buddhists.
 
Todo mundo precisa concordar comigo? Não. Mas também não vou usar contos de fadas para justificar nenhuma posição. Confiar no lobo só por ele vestir a capa de cordeiro é uma escolha. Por que é tão fácil criticar o Cristianismo, chamar pastor de mentiroso, ladrão, vagabundo e é tão difícil aceitar que nem tudo que vem da Ásia é puro e santo? Vamos amar os seres vivos, vamos rezar o mantra da compaixão, vamos falar da igualdade entre todos os seres, já que todos compartilham da mesma natureza búdica. E depois do culto tem churrasco e feijoada no pátio.
 
Reflitam.

. . .

 
 
 
“Demônios se tornarão monges para deteriorar meu caminho e torná-lo confuso. Eles beberão álcool e comerão carne, vão omitir partes dos sutras, serão prolixos e terão trejeitos suaves, pois querem ser famosos…” (Sutra da Total Aniquilação do Dharma)

Para ser notificado a cada novidade!!


Um e-mail foi enviado para confirmar sua assinatura. Verifique seu e-mail e clique em confirmar para ativar sua assinatura.

Veja Também

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Share on LinkedIn
Heresia, fanatismo, fundamentalismo e os “happy buddhists”
Classificado como:        

3 ideias sobre “Heresia, fanatismo, fundamentalismo e os “happy buddhists”

  • 30 de outubro de 2014 às 21:32
    Permalink

    Quem disse que cerveja e sexo não combinam com Budismo?
    Resposta: O Buda.

    Kkkkk!

    • 16 de novembro de 2014 às 10:13
      Permalink

      Não é uma loucura?

  • 19 de agosto de 2015 às 21:23
    Permalink

    Eu conheci o budismo pelo tenplo Zulai, achei tudo bonito mas nunca tinha visto esse lado obscuro… Obrigada por compartilhar… Que o grandioso Bodisatva Maytreia salve a todos!!

Os comentários estão fechados.

Mostrar
Compartilhe
Compartilhe
Compartilhe
Canal no Youtube
Esconder
error: Este conteúdo pode ser divulgado sob permissão do autor - contato@rodadalei.com.br