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Parábola: Budismo Hinayana x Mahayana

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Era uma vez uma determinada cidade em que havia muita miséria, onde as pessoas sentiam uma fome terrível, do tipo daquelas que ainda acontecem na África. Os habitantes eram magros e emaciados e, por isso, sofriam demasiadamente. Porém, ali viviam dois homens ricos, um velho e um jovem, que possuíam uma enorme quantidade de grãos, que facilmente poderia alimentar a todos.

O velho tinha do lado de fora da sua casa um aviso que dizia: “Quem vir receberá comida”. Porém, abaixo dessa  afirmação seguia-se uma longa lista de condições e regras. Se as pessoas quisessem comida, deveriam chegar em um certo momento específico, levando com elas recipientes de forma e tamanho segundo um padrão, devendo segurar esses receptáculos de uma certa maneira e elas teriam que pedir seu alimento de acordo com certas frases definidas e em uma linguagem arcaica. Muitas pessoas não viam o cartaz, pois o velho vivia em uma rua afastada; e daqueles que viam o recado, alguns paravam para comer, mas outros preferiam nem pedir devido à longa lista de regras. Sempre que o velho era perguntado por que ele impunha tantas regras, justificava:

— Era assim no tempo do meu avô em épocas de fome – e continuava – o que era bom o suficiente para ele certamente é bom o suficiente para mim. Quem sou eu para mudar as coisas?

Para o velho, quem realmente quisesse comida, observaria qualquer número de regras para obtê-la e quem não se dispusesse a observar as regras, certamente era porque não estava com fome.

Por outro lado, o homem jovem preferia uma abordagem diferente. Ele levava um grande saco de grãos nas costas e batia de porta em porta, doando estes grãos. Assim que um saco ficava vazio, ele corria para casa para pegar outro. Desta forma, ele conseguia dar uma grande quantidade de grãos à toda cidade. Ele doava a qualquer um que pedisse. Este homem estava tão interessado em alimentar as pessoas que não se importava em entrar nos locais mais pobres, sombrios e sujos. Ele não se preocupava de ir a lugares onde as pessoas respeitáveis ​​não costumam se aventurar. Sua única preocupação era matar a fome de todo mundo.

Por causa desse comportamento, costumavam dizer que o rapaz era apenas um workaholic ou que exigia demais de si mesmo. Outros questionavam se este proceder poderia ou não interferir na lei do karma. E ainda, um outro grupo reclamava que muitos cereais estavam sendo desperdiçados, pois muita gente pegava mais do que realmente precisava. O jovem não dava ouvidos a nada disso, preferindo arcar com um suposto prejuízo a arriscar a possibilidade de que houvesse alguma vítima por inanição. Um dia, o velho, sentado do lado de fora de sua casa e fumando pacificamente um cachimbo por ainda não estar no horário da distribuição de seus grãos, interpelou o jovem que passava pela rua:

Você sempre está apressado e parece cansado! Por que você não diminui seu ritmo?

O jovem, então, respondeu, sem muito fôlego:

Não posso! Ainda há muitos que não foram alimentados.

O velho estarrecido balançou sua cabeça e retrucou:

Deixe-os vir até você! Por que você acha que deve se esforçar tanto por eles?

Mas o jovem, impaciente por estar perdendo tempo com aquela conversa justificou-se:

Eles são muito fracos para virem até mim, mal conseguem andar. Se eu não for até eles, eles morrerão.

Realmente isso é muito ruim – disse o velho – esses pobres deveriam ter vindo antes, quando eram mais fortes. Eles não conseguiram pensar à frente, logo, a culpa é deles.

Mas, nesse momento, os ouvidos do jovem já estavam fora do alcance das palavras do ancião. O rapaz já se dirigia à sua residência, a fim de pegar mais um saco de grãos; enquanto o velho preparava um novo cartaz cujo título era: “Regras para ler as regras”.


Sem dúvida, você já adivinhou o significado da parábola. O velho é o Arhat, que representa o Budismo Hinayana, e o jovem é o Bodhisattva, que representa o Mahayana.

A fome é a situação humana de delusão e sofrimento, os habitantes da cidade são todos os seres vivos e o grão é o Dharma, o ensinamento. Assim como, tanto o velho quanto o jovem estão dispostos a dar grãos a todos, em princípio, tanto o Hinayana quanto o Mahayana são universais.

Contudo, na prática, o Hinayana impõe certas condições. Para atingir a iluminação dentro desta tradição, mesmo hoje, é preciso se afastar do convívio secular e seguir uma infinidade de regras que na maioria das vezes dependiam de certos contextos que hoje não fazem mais sentido algum. A Iluminação, isto é, a libertação final de todas as ilusões e desejos é reservada quase que exclusivamente para os clérigos; a figura do leigo fica relegada a segundo plano. Para o hinayanista, qualquer tentativa de “divulgação do Dharma” é um tipo de “ativismo barato” e inócuo.

O Mahayana não impõe tais condições, torna o Dharma disponível para as pessoas em qualquer contexto, para leigos ou sacerdotes, seculares ou eremitas, uma vez que se preocupa apenas com os itens essenciais e considera normas e métodos apenas como meios hábeis para a libertação dos que sofrem.

Esta diferença fundamental entre estas tradições remonta ao início da história budista. Cerca de cem anos após a morte do Buda, seus discípulos discordaram de certas questões tão fortemente que a comunidade espiritual acabou sendo dividida em duas. Na verdade, eles discordaram sobre a própria natureza do budismo. Um grupo de discípulos considerou que o budismo se limitava simplesmente aos registros do que o Buda havia dito: As Quatro Nobres Verdades, o Nobre Caminho Óctuplo, os Doze Elos da Originação Interdependente, os Quatro Fundamentos da Consciência, ou seja, que só isto seria o budismo. Mas o outro grupo respondeu que isso não era suficiente, que a Sangha precisaria atuar fundamentada na compaixão e não apenas “nas escrituras”; que a comunidade, ao invés de se isolar, deveria adentrar no poeirento mundo do Samsara para resgatar os seres, “adaptando-se”, sem perder a essência, conforme o “público alvo”.

Ser Mahayana só no papel também não significa nada. Muitas instituições que se intitulam desta maneira são tão ou mais apegadas a regras e rituais quanto os hinayanistas. Não é raro irmos a algum templo, por exemplo, e assistirmos a cerimônias incompreensíveis, em japonês ou chinês, cheias de “senta e levanta”, altares e paramentos suntuosos, mas de uma “espiritualidade” burocrática e vazia.

Acima da rigidez das regras do Tripitaka está o exemplo de vida do Buda, que personifica o voto compassivo do Bodhisattva, característico da tradição Mahayana. A chave para a compreensão do Budismo “do Grande Veículo” está na compaixão; quando regras e cerimonialismos prejudicam a distribuição do grão aos famintos é porque algo está fora de foco.

Autor: Mestre Tam
Fonte: The Seeker’s Glossary of Buddhism. Sutra Translation Committee of the United States & Canada. The Van Hien Study Group. pg. 540.
Tradução e adaptação: Rev. Sandro Vasconcelos

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