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O Budismo Tendai (Tiantai) – Mais detalhes sobre a Escola Budista a qual enfoco e divulgo.

Das ramificações até o surgimento

Depois da morte de Buda em meados de 500 AC, divergências entres os primeiros Budistas começaram a acontecer; este fato, intensificado pela expansão da religião pelos países asiáticos, cada qual com sua cultura bem característica, proporcionou, com o passar dos anos, uma intensa ramificação do Budismo em facções. Após a primeira grande divisão Mahayana e Hinayana, outras subdivisões foram ocorrendo, até termos atualmente centenas de denominações Budistas. Uma das linhagens que se destacou e muito influenciou o Budismo como um todo foi Tradição Tendai, fundada na China no período Sui-Tang e posteriormente introduzida no Japão no período Heian.

História

A Tradição do Budismo Tendai iniciou-se na China, mais especificamente no Monte Tiantai (em japonês Tendai), ao sul do país, onde o monge Zhiyi (538-597 DC) buscou sintetizar os ensinamentos Mahayana do sul e do norte em um todo coerente. Para este fim, o sacerdote baseou-se em sutras e outras escrituras de mestres proeminentes, como o patriarca Nagarjuna (150-250 DC).

A Escola Tendai chegou ao Japão por meio do monge Saicho (767–822 DC), no período Heian. Saicho em 804 viajou para a China como estudante e permaneceu no monte Tiantai durante a dinastia Tang. Depois de receber autorização como mestre nesta linhagem, Saicho voltou para o Japão para propagar seus ensinamentos e obteve considerável êxito.

Templo Budista Daxiong Baodian no Monte Tiantai de Jiuhuashan, província de Anhui, China

Infelizmente, a doutrina Tiantai perdeu muita força e degenerou-se no Japão após a morte de Saicho; na China, em 1949, enfraqueceu-se devido ao comunismo, sendo atualmente pouco difundida tanto nestes países, quanto em qualquer outra parte do mundo. Muitas das escolas contemporâneas, que se consideram de origem Tendai, ensinam na realidade doutrinas que pouco têm a ver com aquelas defendidas pelos fundadores, a exemplo das escolas Jodô-Shinshu (de Shinran) e as seitas de Nichiren (ou Nitiren), que mesmo diante de uma notória heterodoxia em comparação com a interpretação Tendai original, atribuem a esta Escola a descendência de seus ensinamentos.

A Doutrina

O Budismo defendido por Saicho, além de se fundamentar no estudo aprofundado dos sutras e tratados dos patriarcas, procura enfatizar também a prática diária. Apenas a erudição, sem a aplicação destes conhecimentos no dia a dia é considerada como inócua. Por outro lado, somente a prática, sem um estudo razoável, tende a se tornar mera superstição e, assim, igualmente estéril. Logo, para a Escola, Prática e Estudo são dois remos de um mesmo barco. A práxis é essencial.

Os pilares doutrinários da Escola Tendai são a Transitoriedade, Insubstancialidade, Sofrimento e Iluminação. A Transitoriedade diz respeito à máxima de que nada nesse mundo é perpétuo. A Insubstancialidade refere-se ao vazio, ou seja, de que as coisas são carentes de substância, desta forma, a “coisa em si” não existe, tampouco, entes metafísicos como alma ou deus. Já o Sofrimento relaciona-se às Quatro Nobres Verdades que enunciam, basicamente, que a dor permeia toda a existência – fato que é percebido em um simples bater de olhos em qualquer telejornal. As Nobres Verdades também declaram que é com o proceder ético que se faz possível minimizar o sofrimento próprio e dos demais. A Iluminação, por sua vez, é a meta última do Budista, é o estado de plena compaixão pelos seres e de percepção “nua e crua” da realidade, sem as ilusões conformistas que tanto seduzem o ser humano; em suma, é a aceitação da Verdade mesmo que esta venha a dilacerar o EGO e seus preconceitos.

A prática pode ser sintetizada em uma série de ações capazes de transformar toda a erudição em atitudes reais. O vegetarianismo, por exemplo, é uma forma de compaixão que visa beneficiar os seres sencientes; já a meditação e as recitações funcionam como ferramentas de auto análise com o objetivo de coibir vícios, destacar virtudes e catalisar a Iluminação.

Enquanto as outras linhagens ressaltavam um único método de Iluminação, seja este devocional, pela recitação de mantras ou pela meditação, a Escola fundada por Zhiyi admitia a coexistência de todas estas práticas; assim, o próprio fiel, orientado por um mestre, “escolhia” suas práticas conforme suas características físicas e comportamentais. Por exemplo, nem todo mundo consegue ficar meia hora na posição de Lótus meditando, seja por ansiedade ou por problemas posturais ou nem todos se agradam dos devocionais “mais barulhentos” dos mantras; desta forma, havia abertura para pessoas de diversas características distintas. Esta flexibilização se baseia no conceito de Meios Hábeis, descrito no Sutra do Lótus, texto que, juntamente com o Sutra Mahayana do Nirvana são considerados os principais dessa Tradição. É preciso ressaltar ainda que esta abertura não implica, de nenhum modo, que a prática poderia ser realizada com lassidão; um genuíno mestre Tendai exigia de seu discípulo uma intensa disciplina, independentemente do método adotado. O esforço, tanto nos estudos dos textos sagrados quanto na prática, sempre foi considerado pela Tradição como uma condição essencial para se atingir a Iluminação.

Rev. Sandro Vasconcelos
Budismo Tendai Brasileiro – contato@rodadalei.com.br

Bibliografia:

  • POCESKI, Mario. Introdução às religiões chinesas. Tradução de Márcia Epstein. São Paulo: Editora Unesp, 2013.
  • YOSHINORI, Takeushi (org.). A Espiritualidade Budista, vol.1. Ed. Perspectiva. São Paulo, 2006.
  • MUNIZ, A. O. ASSIS. Declaração sobre a legitimação da Organização Religiosa Budista Tendai Hokke Ichijo Ryu do Brasil.

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