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Oriente e o Ocidente: os povos orientais enxergam o mundo de maneira completamente diferente de nós e você entenderá o porquê ao ler o artigo abaixo:

 

O conceito de homem sedimentado no Ocidente contemporâneo pode ser sintetizado, principalmente, pela filosofia grega e a moderna, que define o ser humano com um ente, um Ser que além de estar separado do todo pela concepção sujeito-objeto, possui atributos ontológicos superiores, como, por exemplo, a razão ou a alma. Esta perspectiva de humanidade influenciou diversos campos do pensamento. Por exemplo, no mundo animal, o animal homem se destaca dos demais por julgar-se possuidor de um tipo de alma mais nobre, uma alma que pensa. Essa hierarquia ontológica fez com que o ocidental se sentisse no direito de se utilizar dos “inferiores” para a realização de suas necessidades. A influência judaico-cristã também teve um grande peso na construção do pensamento ocidental, já que em um dos livros sagrados dessas religiões predominantes da Europa, Deus outorga à humanidade o direito de “exercer o domínio sob todos os seres”.

“E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra.”
Bíblia – Gênesis 1:26

Um argumento filosófico moderno que caracteriza bem esta distinção ontológica entre homens e animais pode ser sintetizado nas palavras de Spinoza:

 “[…] a lei que proíbe matar os animais funda-se mais numa vã superstição e numa misericórdia feminil do que na são razão. O princípio pelo qual se deve buscar o que nos é útil ensina, indubitavelmente, a necessidade de nos unirmos aos homens e não aos animais ou às coisas, cuja natureza é diferente da natureza humana. Temos sobre eles o mesmo direito que eles têm sobre nós. Ou melhor, como o direito de cada um se define por sua virtude ou potência, os homens têm muito mais direito sobre os animais do que estes sobre os homens. Não nego, entretanto, que os animais sintam. Nego que não nos seja permitido, por causa disso, atender à nossa conveniência, utilizando-os como desejarmos e tratando-os da maneira que nos seja mais útil, pois eles não concordam, em natureza, conosco, e seus afetos são diferentes, em natureza dos afetos humanos.”
Spinoza – Ética

Este domínio não só se estendeu entre os animais, mas também a outros homens considerados “não-humanos”, os chamados bárbaros ou selvagens ou a qualquer outro povo que não manifestasse a cultura ocidental. A filosofia ocidental sempre ocupou-se em postular abismos intransponíveis entre a humanidade e as bestas e até entre tipos de humanidades, atribuindo unicamente ao homo sapiens europeu, o “porta-voz da filosofia”, privilégios de eternidade, alma, raciocínio e percepção de mundo mais apurada. Esta concepção foi muito empregada, conscientemente ou não, no domínio e na colonização empregada pelos europeus. Enquanto o índio brasileiro, por exemplo, via no homem branco a manifestação de uma divindade, algo a ser apreendido para seu crescimento espiritual e pessoal, o colonizador via no índio a representação de uma cultura pobre em relação a seus costumes [Viveiros de Castro].

As comunidades primitivas, só para dar um outro exemplo, nunca foram entendidas como verdadeiras sociedades pelo Velho Mundo por inúmeros motivos, entre estes, poder-se-ia citar, o constante envolvimento em guerras. A guerra, dentro do parâmetro “ocidental” de sociedade, é algo indesejável, algo a ser evitado; o Estado tem como uma de suas principais características a manutenção da paz. Já para os padrões primitivos, a guerra parece ter uma dimensão universal. Nenhuma teoria que tente explicar o comportamento destes povos deveria deixar de levar em consideração este papel fundamental da guerra. Mas não é isto que acontece quando o ocidental avalia os primitivos dentro dos seus padrões de “necessidade constante de paz” [Pierre Clastres]. A mentalidade europeia, por sequer cogitar, por um minuto que seja, olhar com os olhos do outro; escandaliza-se com a alteridade, prende-se, como dizia Lévi-Strauss, na ideia de que o outro não pode ser diferente de mim. Esta questão da alteridade é evidenciada em torno de toda a problemática apresentada por antropólogos como Pierre Clastres, Lévi-Strauss e Viveiros de Castro. Primeiramente o conceito de Sociedade normalizado pelo entendimento europeu é usado para definir quem é ou não sociedade, num típico preconceito etnocentrista-primitivista que julga povos espacialmente e temporalmente distantes como modelos subdesenvolvidos de cultura.

O mesmo acontece em relação aos povos orientais quando os chamados “orientalistas” (pesquisadores ocidentais que se ocupam das coisas do Oriente) tentam interpretar a cultura e a história de países como a Índia, China ou dos integrantes do Oriente Médio. Estes pesquisadores não conseguem se desvencilhar do paradigma kantiano, aristotélico ou cristão, tentando estabelecer conexões inviáveis entre o pensamento europeu e as demais culturas.

Não basta apenas se ter o conhecimento da língua de um povo, ler seus registros e a partir de então achar ser possível penetrar a essência deste povo ou o espírito desta língua; uma mera tradução, mesmo que literária e erudita, não é capaz de reproduzir este espírito, uma vez é preciso levar em consideração que as palavras carregam significados diferentes em cada região. Um sério estudioso do Oriente terá que deixar o “olimpo” de sua erudição e envolver-se realmente com a cultura a qual se deseja estudar; deverá deixar de lado os significados usuais das palavras e readequá-las em cada contexto, pois é sabido que quanto mais afastada está uma língua da “língua de referência” maiores serão as divergências de significados.

“O erro capital desses [estudiosos ocidentais] é de tudo encarar desde seu ponto de vista ocidental e através de sua mentalidade própria, enquanto que a primeira condição para poder interpretar corretamente qualquer doutrina que seja é naturalmente fazer o esforço para assimilá-la e para se colocar, tanto quanto possível, do ponto de vista daqueles mesmos que a conceberam. Dissemos tanto quanto possível porque nem todos podem chegar lá igualmente, mas pelo menos todos podem tentá-lo; ora, bem longe disso, o exclusivismo dos orientalistas de que falamos e seu espírito sistemático chegam até o ponto de levá-los, por uma incrível aberração, a se crer capazes de compreender as doutrinas Orientais melhor do que os próprios Orientais: pretensão que só seria risível se não se aliasse a uma vontade bem determinada de “monopolizar” de algum modo os estudos em questão.”
René Guénon

Além da alteridade espacial, ressaltada pela distância física entre os povos, existe também o problema da alteridade temporal. Este é um erro comum cometido pelos “orientalistas”, que sentem-se tão afastados da realidade do Oriente que presumem estudar os orientais como se fossem civilizações que “morreram no passado”; como se não fosse possível consultá-las, uma vez que estas, ainda hoje, possuem um grande acervo literário e conhecimento de suas tradições.

“Para nos atermos aqui no que se refere aos orientalistas, os quais se pode denominar “oficiais”, assinalaremos ainda, […] o erro [que estes cometem] em estudar civilizações orientais como se faria para civilizações desaparecidas há muito tempo. Neste último caso, é evidente que se é forçado, na falta de algo melhor, a se contentar com restituições aproximadas, sem nunca estar seguro de uma perfeita concordância com o que existiu realmente outrora, visto que não há nenhum meio de proceder verificações diretas. Mas esquece-se que as civilizações orientais, pelo menos aquelas que nos interessam atualmente, perpetraram-se até nós sem interrupção, e que dispõem ainda de representantes autorizados, cujo parecer vale incomparavelmente mais, por sua compreensão, que toda a erudição do mundo; todavia, para cogitar em consultá-los não se deveria partir desse estranho princípio de que se sabe melhor do que eles ao se ater sobre o verdadeiro sentido de suas próprias concepções”.
René Guénon

Da mesma maneira com que os ocidentais não consultam os orientais, os orientais também não se preocupam com o que os ocidentais pensam, por isso, não censuram ou tentam corrigir as distorcidas interpretações dos “orientalistas”. Não há o sentimento proselitista entre os Orientais, os Orientais não declaram seus pensamentos e divulgam sua cultura aos quatro ventos, pois temem pela vulgarização de seus conhecimentos.

Deste modo, fica caracterizado preliminarmente o problema da alteridade entre Ocidente e Oriente. Na sequência deste trabalho, procurarei aprofundar melhor esta questão, buscando demonstrar as diferenças essenciais e fundamentais que existem entre os modos gerais do pensamento Ocidental e Oriental.

Primeiramente é preciso delimitar a fronteira entre Ocidente e Oriente. Poderíamos dizer numa primeira aproximação que o Oriente é a Ásia e o Ocidente é a Europa, porém se faz necessário uma melhor explicação. Quando falamos da mentalidade Ocidental ou europeia, empregando indiferentemente uma ou outra dessas palavras, entendemos por isso a mentalidade própria do europeu tomada em seu conjunto. Portanto, chamaremos de europeu todo aquele que se liga a essa mentalidade e que em qualquer parte do mundo se encontre. Assim, os americanos e os australianos, para citar só estes, são para nós europeus, exatamente com os mesmos direitos que os homens que continuaram a residir na Europa. Mesmo que haja diferenças culturais entre os diferentes países “europeus fora da Europa”, estas diferenças podem ser classificadas como secundárias, uma vez que o cerne do pensamento destes não deixa de ser europeu, principalmente no que diz respeito à visão de civilização padrão e da perspectiva de superioridade do homem civilizado em relação ao modo de vida de outros povos; estas características mentais são aquelas pelas quais a unidade europeia é a mais nítida: quaisquer que tenham sido as diferenças originais das raças que se reuniram na Europa, formou-se pouco a pouco, no curso da história, uma mentalidade que, apesar de diferenças secundárias, têm um fundo comum que se sobrepôs às diferenças e unificou um pensamento, uma forma de percepção da realidade que se espalhou com a colonização europeia pelo mundo.

A mentalidade europeia foi formada basicamente pela influência grega, ou, querendo-se, greco-romana. A influência grega é quase que exclusiva no que se refere aos pontos de vista filosófico e científico, apesar da aparição de certas tendências especiais com o advento da modernidade. Quanto à influência Romana, ela é menos intelectual que social, e ela se afirma sobretudo nas concepções do Estado, do direito e das instituições; de resto, intelectualmente os Romanos tinham quase que tomado emprestado tudo dos Gregos, de modo que, através deles, é somente a influência destes últimos que se pôde exercer ainda indiretamente. É preciso também colocar a importância, sob o ponto de vista religioso, principalmente, da influência judaica, que reencontraremos, aliás, igualmente numa certa parte no Oriente; há aí um elemento extraeuropeu na sua origem, mas que não é, por outro lado, menos constitutivo da mentalidade Ocidental atual.

Se do lado Ocidental existe uma dificuldade em se definir uma única raça, mas sim uma quantidade de raças que formam uma mentalidade muito próxima, no lado Oriental, esta dificuldade é ainda mais agravada. As diferenças étnicas no Oriente são muito maiores; pois, estamos falando de um conjunto muito mais vasto, que compreende populações bem mais numerosas. Pode-se distinguir nesse conjunto muitas raças com características muito nítidas e das quais cada uma tem sua civilização própria, muito diferente das outras: não há uma civilização Oriental como há uma Ocidental; na realidade, há civilizações Orientais. Apesar dessa pluralidade, pode-se definir uma mentalidade predominantemente oriental, que é unificada por um elo Tradicional, como será visto a diante.

Quando se diz que as raças orientais tem uma civilização própria, isto não é absolutamente verdadeiro, só é mesmo rigorosamente exato para a raça chinesa, cuja unidade se baseia essencialmente no fator étnico. Para as demais civilizações asiáticas, o princípio que abarca raças diversas em uma unidade é totalmente outro, desconhecido dos ocidentais. Tal princípio é o tema central que está em discussão neste trabalho.

Somente as características descritas até aqui já são suficientes para demonstrar claramente a desproporção, a assimetria, entre estes dois conjuntos denominados Ocidente e Oriente. Esta diferença costumava ser muito menor na antiguidade. Com os ideais de “progresso” e “evolução” o Ocidente começou a se afastar cada vez mais do Oriente, que basicamente permaneceu estático. O Ocidental, sobretudo o moderno, aparece essencialmente como mutável e inconstante, aspirando ao movimento e à agitação, enquanto o Oriental apresenta exatamente o caráter oposto. O Ocidente e o Oriente, portanto, não se afastaram em duas linhas divergentes, mas sim o Ocidente parece ter se desviado de um eixo de referência, separando-se de um tronco, de uma linha vertical praticamente imutável. Essa separação colocaria como cultura de referência a própria cultura Oriental e não a Ocidental, como arrogantemente presume-se no lado Europeu. Inclusive, há evidências de que a própria religião Grega seria uma cópia de doutrinas orientais. Os primeiros filósofos gregos podem ter conhecido várias doutrinas orientais, como o Budismo e o Hinduísmo; o fato de os mais antigos filósofos gregos terem precedido em vários séculos a época de Alexandre, não autoriza de modo algum a concluir que eles nada conheceram das doutrinas hindus. Para citar um exemplo, o atomismo, muito tempo antes de aparecer na Grécia, fora sustentado na Índia pela escola de Kanâda e depois pelos Jainas e Budistas. Estas doutrinas chegaram de algum modo na Grécia, foram importadas muito antes das viagens alexandrinas, porém, na Grécia já não mais carregavam a mesma essência que tinham em seus locais de origem. Foi assim que se iniciou a separação do tronco, ou seja, a degenerescência da tradição Oriental no Ocidente.

Essa separação não foi contínua ao longo da história, houve épocas menos afastadas em que o Ocidente recebeu de novo a influência direta do Oriente: queremos falar sobretudo do período alexandrino, e também do que os árabes trouxeram à Europa na Idade Média, e do qual uma parte lhes pertencia propriamente, enquanto que o resto era tirado da Índia. A divergência reapareceu no Renascimento e com a introdução dos ideais modernos, quando se produziu uma ruptura muito nítida com a época precedente.

Nota-se, até aqui, que o comportamento do ocidental em relação à alteridade é fundamentado em uma espécie de “preconceito clássico”. O “preconceito clássico” pode ser definido como a parcialidade em atribuir aos Gregos e aos Romanos a origem de toda a civilização. Os ocidentais, visto que sua própria civilização não remonta, de fato, muito além da época greco-romana, e deriva desta quase que inteiramente, são levados a imaginar que deve ter sido assim em todo lugar, e mal concebem a existência de civilizações diferentes e de origem muito mais antigas. Pode-se dizer até que o Ocidental Moderno seja intelectualmente incapaz de transpor o Mediterrâneo; este tem o costume de se referir à “civilização”, supostamente como a “civilização única”, desconsiderando a existência da multiplicidade de civilizações. A civilização ocidental, com suas características especiais, é simplesmente uma civilização entre outras, e aquilo que se chama pomposamente “a evolução da civilização” não é nada mais do que o desenvolvimento desta civilização particular desde suas origens, de um modo, aliás, que nem sempre foi “progressivo”, mas que também passou por momentos de regressão intelectual.

Desta maneira, a filosofia Grega, foi para a civilização Ocidental, o ponto de partida de sua estreiteza de pensamento; estreiteza que caracteriza-se na distinção entre “a civilização” e as demais “não-civilizações”, que determina também um suposto modelo ideal e mais evoluído de homem e de cultura. Tais limitações intelectuais ficam evidenciadas quando os ocidentais, em contato com certas concepções orientais, tentam interpretá-las segundo a mentalidade que lhes é própria: tudo o que eles não conseguem identificar às formas “clássicas” escapa-lhes totalmente, e tudo aquilo que eles o conseguem é desfigurado a ponto de se tornar irreconhecível. Já na Idade Moderna, tudo para os ocidentais começa a ser pautado na razão, na filosofia e na ciência para fins práticos. Esta tendência “prática”, no sentido mais comum do termo, é uma daquelas que foram se acentuando no desenvolvimento da civilização ocidental; só se pode fazer exceção a este respeito em favor da Idade Média e da antiguidade, muito mais voltada à especulação do que aos fins práticos. Por fim, a religião judaico-cristã também poderia ser citada como um dos componentes da estreiteza do pensamento Ocidental moderno; o proselitismo que já parte do pressuposto de que qualquer outra manifestação pagã é má, foi uma arma muito utilizada para a ratificação da cultura europeia em meio a outros povos.

A tendência à ciência prática, intensificada sobretudo na Idade Moderna, afastou o Ocidente de qualquer tipo de especulação. Em contrapartida, os orientais têm uma tendência muito acentuada para se desinteressar das aplicações e isto se compreende facilmente, pois o interesse dos orientais é fundamentalmente metafísico, ou seja, no Oriente busca-se o conhecimento em essência (princípios universais) e, assim, “ciências especializadas” não provocam no oriental mais do que uma curiosidade passageira.

“Quando se sabe, de algum modo com uma certeza matemática e mesmo mais que matemática, que as coisas não podem ser outra coisa além daquilo que são, há forçosamente desprezo pela experiência, porque a constatação de um fato particular, qualquer que seja, prova nada mais nada menos do que a existência pura e simples desse mesmo fato; no máximo tal constatação pode servir, às vezes, para ilustrar uma teoria, a título de exemplo, mas de modo algum para prová-la, e crer no contrário é uma grave ilusão.” René Guénon

O fato dos orientais não serem nunca vinculados a certas ciências especiais não é de maneira alguma um sinal de inferioridade de sua parte. Não há um único modo de se exercer a atividade mental e essa diversidade é o que imprime a cada civilização seu caráter próprio, determinando-lhe a direção fundamental de seu desenvolvimento. Esse pensamento exclusivista nada mais é do que mais um sintoma do etnocentrismo europeu, que não reconhecendo mais do que uma civilização, vê exclusivamente a direção na qual ela se desenvolve, acreditando ser a única possível, e não se dando conta que tal desenvolvimento em um aspecto pode ser largamente compensado por uma regressão em outros aspectos.

Já foi dito que é possível delinear, apesar da grande quantidade de civilizações, uma mentalidade oriental comum. E, de fato, todas estas civilizações apresentam um traço em comum, um modo geral de pensamento único que apenas se manifesta de formas diferentes. Esta unidade de pensamento está fundada em um elemento Tradicional. Este elemento Tradicional das grandes civilizações orientais é ausente na civilização ocidental (perdeu-se sobretudo com o decaimento da cristandade), esta se apoia sobre princípios bem diferentemente profundos e independentes das contingências históricas, que lhes asseguram duração e continuidade. Isto explica o fato de que a mentalidade oriental pouco mudou com os anos em relação ao conceito ocidental de progresso e evolução contínuos. Para os Orientais a mudança não é bem vinda, a Tradição ancestral, doutrina transmitida oralmente e pelas escrituras, é uma função corretora dos anseios e imperfeições individuais e das sociedades. O Islã é sustentado, por exemplo, por duas Tradições, uma religiosa e outra metafísica. Na China se tem também dois elementos, a Tradição social e a metafísica, já na Índia, se tem puramente a Tradição metafísica. Em todas estas sociedades é possível perceber a submissão das estruturas sociais à conceitos metafísicos, que são universais e portanto, atemporais. Quando se fala que algo é objeto da metafísica, não se deve ter em vista “algo” mais ou menos análogo ao que pode ser o objeto especial de tal ou qual ciência. O objeto da metafísica é “algo” que deve permanecer sempre absolutamente o mesmo, que não pode ser a nenhum grau mutável e dependente de influências dos tempos e lugares; o contingente, o acidental, o variável, são pertencentes propriamente ao domínio do individual e não do universal. Quando se trata da metafísica, o que se pode mudar com os tempos e os lugares são apenas os modos de exposição, ou seja, as formas mais ou menos exteriores com as quais a metafísica pode ser revestida e que são suscetíveis de diversas adaptações. Entretanto, essencialmente, a Metafísica sempre permanece perfeitamente idêntica a si mesma, porque seu objeto é essencialmente uno e além de qualquer mudança.

Estendendo ainda mais as consequências de uma sociedade pautada na metafísica, pode-se acrescentar que não há em absoluto descobertas possíveis em metafísica, já que, desde que se trata de um modo de conhecimento que não recorre ao emprego de qualquer meio especial e exterior de investigação, sendo exatamente o oposto da epistemologia moderna, tudo o que é suscetível de ser conhecido pode sê-lo igualmente para certos homens em todas as épocas. Pelo fato mesmo que a metafísica não participa de maneira nenhuma da relatividade das ciências, ela deve implicar a certeza absoluta como característica intrínseca, excluindo, por isso, necessariamente qualquer concepção de caráter hipotético, de onde resulta que as verdades metafísicas, em si mesmas, não poderiam de nenhum modo ser contestáveis.

“[…] Mesmo que se admitisse que as ideias de evolução e de progresso poderiam ter um certo valor relativo em biologia e sociologia, o que está bem longe de ser provado, não deixaria de estar certo que elas não têm nenhuma aplicação possível em relação à metafísica; logo, essas ideias são completamente estranhas aos orientais, como foram, inclusive, até o fim do século XVIII aproximadamente, para os próprios ocidentais, que hoje acreditam que elas constituem elementos essenciais ao espírito humano. Isto implica, notemos bem, a condenação formal de qualquer tentativa de aplicação do ‘método histórico’ ao que é de ordem metafísica; com efeito, o ponto de vista metafísico opõe-se radicalmente ao ponto de vista histórico, ou o assim suposto, e é preciso ver nesta oposição não somente uma questão de método, mas também, e sobretudo, o que é mais grave, uma verdadeira questão de princípio, porque o ponto de vista metafísico, na sua imutabilidade essencial, é a própria negação das ideias de evolução e progresso; assim, poder-se-ia dizer que a metafísica só pode ser estudada metafisicamente.”
René Guénon

Aqui fica evidenciado então que, enquanto os ocidentais prezam pela mudança, rumo a uma ideia de perfeição ainda não conseguida, os orientais se esforçam em manter suas sociedades em um padrão de perfeição metafísico e conhecido, evitando a mudança e a degeneração do que já se alcançou. Toda a civilização oriental, tomada no seu conjunto, nos aparece essencialmente como Tradicional. Quanto à civilização ocidental, dissemos que ela é ao contrário desprovida de qualquer caráter tradicional ou metafísico, com exceção de seu elemento religioso, o único que conservou em algum grau tal caráter.

Acredito que, deste modo, já é possível compreender o porquê da incompatibilidade entre as mentalidades Oriental e Ocidental, bem como, compreender a razão pela qual os orientalistas não conseguem interpretar o pensamento oriental com profundidade. Antes de qualquer estudo, por mais erudito que seja, sobre civilizações da Índia, China, ou mesmo sobre o Islã, se faz necessário “entrar no espírito” destes povos, analisar suas Tradições, sua metafísica, a forma com que estes enxergam a realidade; caso contrário, o que se presenciará serão interpretações superficiais, presas à filosofia grega, ao conceito de “civilização universal” e ao “preconceito clássico”. Este é, enfim, o paradigma que impede os orientalistas de enxergarem o verdadeiro Oriente.

A convenção de que a priori tudo veio graças aos Gregos e que estes tiveram o monopólio dos conhecimentos na Antiguidade, parece ser a fonte de toda a equivocada interpretação feita pelos estudiosos ocidentais sobre o Oriente. Os “orientalistas”, ou seja, os ocidentais que se arriscam a dizer algo sobre o Oriente, geralmente não conseguem se desvincilhar do “preconceito clássico”, seja por ignorância ou arrogância: ignorância, por simplesmente não reconhecerem outras civilizações, que existiram muito antes da civilização europeia, com outros valores, modos de pensamento e distintas direções de desenvolvimento; arrogância, no sentido de julgarem-se aptos a interpretar uma cultura melhor do que o próprio povo que a vivencia, sem ao menos consultarem qualquer representante desta cultura analisada.

O “preconceito clássico” consiste basicamente em julgar a própria cultura como superior, a mais evoluída, e que todas as demais deveriam se pautar nela. Tal preconceito etnocentrista é originário da filosofia grega, da religião judaico-cristã e em maior parte devido às influências da Idade Moderna e do Renascimento. Este preconceito com os orientais se assemelha ao preconceito definido por antropólogos como Lévi-Strauss, Viveiros de Castro e Pierre Clastres, que estudaram o problema da alteridade no comportamento dos ocidentais diante de povos selvagens durante a colonização europeia na América do Sul.

Com a modernidade o conhecimento pouco a pouco tornou-se “prático”, afastando-se da metafísica. O Ocidente, então, partiu para um “modo de vida” alicerçado em ideais de progresso e evolução. Já o Oriente manteve-se “metafísico”. Assim, enquanto o oriental acredita na mudança como algo pernicioso para suas sociedades, o ocidental, em sua inquietude, não se contenta com um modo de vida estático. As estruturas das civilizações orientais baseiam-se em conceitos metafísicos, em doutrinas Tradicionais ensinadas pelos ancestrais; assim, o oriental busca manter sua sociedade imutável, sempre próxima do ideal pregado pela Tradição; qualquer alteração é vista como um fator degenerativo desta condição ideal conhecida. Por outro lado o ocidental busca alcançar uma perfeição não conhecida por meio do progresso contínuo.

Os orientalistas poderiam evitar muitos enganos se tivessem um conhecimento mais extenso da mentalidade humana e das diversas modalidades da qual ela é suscetível; tal conhecimento só seria possível pelo estudo verdadeiro das doutrinas orientais, o que prestaria assim, indiretamente, imensos serviços a todos os ramos do estudo da Antiguidade. Eles se trancam numa erudição que por si mesma só tem um forte interesse medíocre, mas que é sem dúvida o único domínio onde se poderia exercer sem muitos inconvenientes à atividade daqueles que não querem ou não podem sair dos estreitos limites da mentalidade ocidental moderna. Eis aí, a razão essencial que torna os trabalhos dos orientalistas insuficientes para permitir a compreensão de alguma ideia, e ao mesmo tempo completamente inúteis, senão mesmo nocivos em certos casos, para uma aproximação intelectual entre Ocidente e Oriente.

Bibliografia

Guénon, R. Introdução Geral ao Estudo das Doutrinas Hindus. São Paulo. Editora IRGET. 2014;
Lévi-Strauss, Claude. Antropologia Estrutural 2. São Paulo: Cosac Naify, 2013;
Clastres, Pierre. Arqueologia da Violência. São Paulo: Cosac Naify, 2011;
Castro, Eduardo Viveiros de. A Inconstância da Alma Selvagem e outro ensaios de antropologia. São Paulo: Cosac Naify, 2011;
Spinoza, Benedictus de. Ética. Tradução de Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009;
Bíblia de Referência Thompson. Tradução: João Ferreira de Almeida. Edição Contemporânea. 13. ed. São Paulo: Editora Vida, 2000.

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