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Com frequência, escrevo aqui sobre a importância do Despertar, de se perceber como parte do Todo, de aceitar a finitude, entre outras coisas do gênero. Tenho constatado que este tipo de postagem é a menos prestigiada, esse detalhe me fez refletir sobre o que as pessoas realmente querem quando buscam o Budismo ou qualquer outra forma de religiosidade.

No cristianismo, parece-me que a maioria dos fiéis almeja simplesmente alcançar objetivos pessoais, como entrar no “paraíso” para fugir do inferno/purgatório, quando não somente a obtenção de uma vida confortável e abastada. Já os budistas querem retiros para aliviar a estafa, métodos de meditação para relaxamento, “viagens filosóficas” (entenda-se viagens na maionese) e até mesmo uma “esperança de vida eterna” pela fé em conceitos como reencarnação ou transmigração. Raramente ouvi de algum budista justificativas nobres para se buscar a espiritualidade: poucos me falaram a respeito do real sentido de ligar-se à Vida, que consiste basicamente em contemplar o Belo, procurar o auto domínio, proteger os seres e abandonar os padrões ilusórios de felicidade (senso comum).

Fonte Google Imagens

Em todos os lugares que frequentei, percebi que os religiosos eram, na maioria das vezes, ocos, fracos, avarentos, fanáticos, massificados e raramente autênticos. Percebia, tanto no meio cristão quanto budista, que muitos adoravam discussões estéreis para justificarem seus credos, debatendo picuinhas tais como, se é preciso orar de joelhos, se é necessário deixar o altar ao norte ou ao sul, se é errado ter imagens, se é preciso tirar o pó da mandala às cinco da manhã, se as escrituras se encerram nelas próprias, se tem que dar três pulinhos antes de entrar no templo, se devo cortar as unhas em dias específicos, entre outras coisas parecidas. Notava que a vida religiosa era composta mais de detalhes inúteis e protocolares do que de vida prática. Conheci religiosos que assiduamente cumpriam todas estas picuinhas, mas deixavam de cumprir as coisas mais essenciais, ensinavam nos púlpitos sobre fidelidade, mas adulteravam sem nenhum remorso; falavam em virtudes, mas só manifestavam vícios; falavam em honestidade, mas eram corruptos; pregavam o amor, mas não moviam uma palha para promover o bem. Inferi com isso que, de forma geral, os religiosos só participam de cerimônias como autômatos, ou seja, não transformam os ensinamentos em Vida. Grande parte, infelizmente, quando não despreza completamente a Verdade, acredita piamente estar em plena comunhão com ela e que nada mais precisa aprender ou melhorar.

Quando me percebi como parte deste assombroso cenário, busquei reformular o conceito de religião, repensar qual era a importância e o real papel da religiosidade na minha vida e na vida do ser humano como um todo. Esta reformulação me levou às seguintes conclusões:

(1) A busca pela Verdade (Iluminação) é a principal razão de se pertencer a uma religião. A Verdade desvela a realidade como ela é, sem ilusões. Esta Verdade aponta para o fato de que todos os seres são parte de um mesmo Todo. Por conseguinte, a real religiosidade consiste em percebermos os seres como irmãos, isto é, como parte de nós mesmos. Viver assim implica em procurarmos as virtudes para a garantia do bem comum. A religião, ainda, deve nos dar fundamentos para que orientemos nossos espíritos e, conscientes de nossas verdadeiras prioridades, procuremos a concentração, a contemplação, o altruísmo, a gentileza, e, enfim, a reflexão sobre as consequências de nossas atitudes em relação ao meio e aos demais. A maioria nem mesmo cogita este proceder, por desleixo ou falta de interesse nestas questões. O fraco nível das instituições religiosas contemporâneas também contribui para o problema, pois estas preferem – por diversas razões, inclusive, financeiras – manter seus fieis acomodados e controlados como um rebanho, ao invés de motivar-lhes à liberdade. Além disso, muitos definem a religião de maneira supersticiosa, miraculosa e mágica ou como algo que simplesmente existe para “resolver problemas pessoais” (religiosidade como utilitarismo).

(2) A religião não deve ter por fim a satisfação dos desejos, mas a realização do Bem Superior. Viver unicamente para satisfazer os desejos pode parecer, a princípio, um bom negócio, mas ao fim conduz à escravidão da mente pelos instintos e concupiscências. Apegar-se ao efêmero só é prazeroso a curto prazo. A verdadeira felicidade está no Ser, no Durável. Isso significa vivenciarmos uma satisfação interna, cada vez menos dependente de contextos que “nascem, envelhecem e morrem”. O não iluminado busca sua paz nos bens inferiores, por estar na ignorância (A Mentira), por outro lado, o espiritualista, dotado de Conhecimento, se utiliza dos bens inferiores apenas para alcançar e manifestar o Dharma (A Verdade). Ao ouvir uma música, por exemplo, o aspirante pela Iluminação se esforça em contemplar o Belo, transcender o mero prazer da audição; não considera a música com um bem em si, mas como algo que aponta para o Sublime. Quando olha as estrelas, não as observa apenas sob um olhar científico/materialista – mais do que isso – as contempla buscando compreender a Sabedoria da Natureza que as ordena. Perceber o Sublime nos transforma, é a gnose que sepulta o homem ignorante e faz nascer o Desperto, e esta “metamorfose”, além de nos libertar, pode beneficiar aqueles que estão à nossa volta.

(3) A religião é sim uma busca pela felicidade ou no mínimo um caminho de menor sofrimento. Nesse sentido, não acho errado dizer que a religiosidade vale sim a pena ser exercida. Para isso, porém, se faz necessário diferenciar a “felicidade do senso comum” da “felicidade verdadeira” e – é igualmente preciso distinguir – a “religiosidade fundamentalista” da “real espiritualidade”. Ou seja, a religiosidade só vale a pena mesmo quando há o conhecimento do que é o Verdadeiro Bem, isto é, quando existe o discernimento do que é essencialmente o Caminho e do porquê trilhá-lo. O Verdadeiro Bem é aquele que minimiza o sofrimento não só do praticante, mas também dos demais seres que o rodeiam; é algo prático, imanente, do dia a dia, não se encontra em universos espirituais paralelos. Superstições, crença em milagres, e “metafísicas exageradas”, dogmáticas e muito afastadas da realidade, não combinam com a real espiritualidade, que é racional, objetiva e comedida.

Enfim, ser religioso é promover a auto análise, procurar ser alguém melhor (mais nobre), para, assim, viver em conformidade com a Verdade. Não adianta “vencer” debates teológicos, justificar credos com retóricas elaboradas, vestir-se como um sacerdote, falar de maneira pomposa, realizar cerimônias e estudos, se nem mesmo os fundamentos da doutrina não são vivenciados. Antes de nos identificarmos com um rótulo religioso, é preciso fazermos a lição de casa, ou seja, desenvolvermos um mínimo de auto domínio e respeito para com as pessoas e seres. Estes são os pilares de qualquer religiosidade que se preze.

No âmbito do Budismo, esta religião pode ser sintetizada segundo os 3 pilares*, que é uma “adaptação” da Doutrina à nossa realidade, como a seguir:

1- Minimizar o sofrimento;
2- Manifestar as virtudes (paramitas);
3- Controlar e mente.

* Baseado no versículo 183 do Dhammapada

Se a pessoa conseguir seguir estes 3 pontos ela pode se considerar Budista, não importa a “escola”, a “tradição” ou linhagem. Viver uma vida fundamentada nestes 3 pilares não é pouca coisa; já é uma baita vitória sobre si mesmo! Lembre-se que o Budismo é sobretudo ação e não só palavras!

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